segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Espiritismo na literatura clássica - Roma.

Outro artigo publicado na revista Reformador, de Dezembro de 2008.

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Como bem se sabe, toda a cultura latina é uma expressão ampliada e adaptada da grega. De modo que somente pelas características mais cotidianas e técnicas da vida se diferencia a alta cultura da Grécia Clássica e da Roma Antiga. No mais, a educação do patrício romano consiste no estudo dos clássicos, preferencialmente nos originais em grego.
            Não assusta que a sua literatura seja quase que uma cópia daquela, onde o panteão de deuses, a mitologia, a filosofia implícita e os temas tendem a se repetir.
            Assim que Cícero expressa crenças gregas, assumidamente adquiridas em contato com esta tradição.  
“Pois que estou longe de concordar com aqueles que tardiamente promulgam a opinião de que a alma perece com o corpo, e que a morte aniquila todo o ser, por outro lado, há que se valorizar a autoridade dos antigos, aqueles que estabeleceram ritos para os mortos, os quais certamente não seriam feitos com o pensamento de que os mortos estão totalmente desinteressados destas observâncias... ou ainda segunda aquela doutrina; que segundo alguns foi pronunciada pelo oráculo de Apolo ao mais sábio dos homens, e que dizia não uma coisa hoje e outra amanhã, como fazem muitos, mas repetia sempre a mesma coisa, sustentando que as almas dos homens são divinas, e que saem do corpo, que o retorno aos céus é acessível a elas, e que este retorno é direto e fácil na proporção de sua integridade e excelência.”[1] 

            É interessante o caráter prático que distingue o povo latino da maneira de pensar grega, estritamente teórica, pois nenhum filósofo grego diria serem as tradições comprovantes do interesse dos espíritos em nossas vidas. À mentalidade grega agrada a teoria, a abstração, e o grego argumentará sempre que a alma aprecia o rito fúnebre porque há para isso uma razão, e a explicará segundo a natureza da alma, a qual apraz a amizade, a lembrança.
            Cícero, sendo pragmático, argumenta conforme os fatos. 1- Faz-se ritos aos antepassados. Logo alguém que instituiu estes ritos sabia serem capazes de agradar aos espíritos. 2- Há doutrinas que falam da divindade humana e da relação entre pureza moral e libertação da alma. O filósofo latino procede por observação de fatos e relatos.
Em termos semelhantes se expressa Vergílio, embora não faça, como o filósofo, um elenco de argumentos. Como era comum às tradições do passado, incluindo naturalmente a Bíblia, a literatura clássica confunde criatividade e tradição, lenda e memória histórica da fundação dos povos e destino das nações.
A Eneida, que sem dúvida é a obra maior da cultura romana, é um relato fictício que guarda profundas intuições históricas e espirituais sob suas metáforas. Tratando somente das segundas, encontramos uma descrição impressionante do suicídio de Dido, rainha de Cartago, ao ser abandonada por Enéas. Ainda no templo da pátria, durante a decisão de matar-se, “crê ouvir a voz e os gritos de chamamento do seu marido...”.[2]
Instantes antes do suicídio, Enéas vê em sonho a imagem de um deus “desconhecido”, que lhe diz:
“... não vês os perigos que te cercam no porvir? Ela, decidida a morrer, revolve em seu coração enganos e crime cruel, e flutua numa varia agitação de furores. Porque não foges depressa, enquanto ainda podes...”[3] 

 Atento a uma mensagem tão clara e direta, Enéas não receia em lançar-se ao mar com seus marujos rumo à Itália, enquanto Dido, recebendo os informes do ocorrido, perfura-se com a espada da família. Entretanto não consegue morrer, porque literalmente está presa ao corpo, e agoniza terrivelmente.
“Então, a onipotente Juno, compadecida da sua prolongada dor e da penosa morte, envia-lhe Íris, do alto do Olimpo, para libertar aquela alma em luta com os laços do corpo. Pois, como sucumbia a uma morte não prescrita pelo destino nem merecida, mas perecia, infeliz, antes do tempo e presa a um súbito furor...”[4]
           
            Temos aí uma página verdadeiramente espírita, relatando a aventura primitiva daquilo que se observa nas páginas de André Luiz ou Manoel Philomeno de Miranda. A boa Íris tem o papel de verdadeira mensageira da luz, atuando em favor de uma transição menos terrível de Dido, que por sua vez não consegue libertar-se do corpo.
            Mais tarde Enéas tem de descer ao Tártaro, nas mesmas condições em que Ulisses havia feito na Odisséia de Homero. Enquanto o herói de Ítaca encontrava aí a sua mãe, Enéas vê o pai, Anquises, no mundo das sombras. Anquises fala a Enéas:
        “Logo que o dia supremo da vida deixou o corpo, os infelizes não estão de todo desembaraçados do mal... e o mal que longo tempo se acumula no fundo deles mesmos, necessariamente cresce... Por isso são castigados com penas e sofrem... a seguir somos enviados para o amplo Elísio... Finalmente, depois que um longo dia, volvido o círculo dos tempos, apagou a mancha profunda e purificou a origem celeste, faísca do sopro primitivo... o deus os chama para as bordas do rio Letes, a fim de que esqueçam o passado... e comecem a querer voltar para corpos.”[5]

            Esta página riquíssima aponta discretamente para várias grandes verdades. Os espíritos que não se desembaraçaram do mal são aqueles que o acumulam por longo tempo em si mesmos, revelando a lei do mérito e indicando que há justiça e conhecimento de causa no processo de separação das almas condenadas. E o mais impressionante, após os sofrimentos expiatórios de suas faltas a alma se vê purificada, e é reconduzida ao corpo.
            Estes dois exemplos, de Cícero e Vergílio, são suficientes para ilustrar o quão vivos estavam ainda os conhecimentos de Orfeu, Pitágoras, Platão e outros sábios gregos, que a cultura romana então absorvia avidamente.
            Nos anos que se sucederam os homens mais sábios do mundo romano já estavam envolvidos com o cristianismo nascente, tanto que não há obras expressivas da literatura pagã após o ano de 60 d.C. aproximadamente. 
            Os melhores elementos daquela cultura, entretanto, foram absorvidos e transmitidos à rica tradição cultural dos dois séculos posteriores, cumprindo assim a sua missão de educar as populações latinas para o cultivo da virtude e da sabedoria.

 Bibliografia:

CICERO, Marcus Tullius. Ethical writings of Cícero: De Amicitia. Traduzido por Andrew Peaboy. Boston: Little Brown, 1887. 

VERGÍLIO. Eneida. São Paulo: Cultrix, 2001.


[1] Marcus Tullius CICERO. De Amicitia (Da Amizade).
[2] VERGILIO. Eneida. Pg. 81.
[3] VERGILIO. Eneida. Pg. 83
[4] VERGILIO. Eneida. Pg. 86.
[5] VERGILIO. Eneida. Pg. 127. 

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