quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A virtude dos estóicos

A virtude essencial dos estóicos era a verdade. Eles não pregavam sempre uma vida frugal e ascética. O rigor e a disciplina eram mais conseqüências do que postulados fundamentais. Na base de tudo estava a preocupação de se atingir um estado de perfeita honestidade, de sinceridade consigo mesmo e com os outros. Todo o resto é secundário no estoicismo, mas evidentemente a maioria dos que se ocupam em manter um grau elevado de sinceridade encontrarão obstáculos psicológicos que geralmente só podem ser superados com uma disciplina heróica.
         Os estóicos, como todos os socráticos, são intelectualistas convictos, e acreditam no papel essencial da razão para a vida feliz. Os hedonistas e epicuristas, aos quais se atribui popularmente uma espécie de inimizade em relação aos estóicos, eram igualmente intelectualistas que acreditavam no papel preponderante da razão para evitar o desprazer, a frustração e o ressentimento. Todas as escolas socráticas, não importa a sua ênfase, tinham em comum a consciência da fragilidade do conhecimento humano, o que lhes conferia a famosa humildade socrática de jamais considerar suas posições como verdades absolutas, senão sempre como propostas sensatas, mas falíveis de entendimento da realidade. Também compartilhavam a importante característica de se concentrarem todos sobre a moral. Considerando que o conhecimento é incerto e a vida uma realidade, convém não investir tanto tempo na investigação do mundo e voltar as forças do espírito para a meditação sobre a vida, e sobre como ela pode ser melhor. Naturalmente este esforço de reflexão sobre a possibilidade de uma vida melhor só faz sentido se houver uma crença prévia de que a razão é eficaz nesta tarefa. Desta forma todas as escolas socráticas se ocupavam exaustivamente com a correção do intelecto, pois atribuíam a maioria dos sofrimentos da vida a erros de interpretação, expectativas ilógicas e fantasiosas, auto-engano, desinformação e mentira.
         A mentira ocuparia para os estóicos um papel mais importante do que para os demais socráticos, pois eles a enxergavam como síntese de todas as demais fraquezas intelectuais. Seu diagnóstico apontava para o orgulho e a malícia como a fonte da mentira. Quem transmite uma informação é sempre responsável pela atitude com que o faz. Se a postura do comunicante é humilde e consciente, ele confessará estar expressando uma opinião ou um raciocínio lógico, mas falível. Se esta postura, entretanto, for de malícia, o comunicante tem interesse em enganar o ouvinte. Se a postura for arrogante, segura de si e dogmática, o comunicante incute suas crenças e arrazoados nos ouvintes, revestindo-as de aparência de verdades absolutas. 
Os estóicos eram excelentes psicólogos, e perceberam que estes erros de postura muitas vezes são inconscientes, fruto de má educação ou hábito. Por isso propunham uma educação filosófica muito semelhante a uma psicoterapia, em que o estudante buscava identificar em si as causas de seus enganos, idéias fixas, dogmas e vícios. Este exercício era marcadamente liberal e individual, não havendo qualquer tábua de valores ou normas que o praticante fosse obrigado ou mesmo aconselhado a seguir. Mais ainda do que o psicoterapeuta atual, o mestre estóico não interferia na auto-análise do discípulo, limitando-se a fazer a sua própria auto-análise pública. As aulas dos maiores mestres, como Epicteto, consistiam exclusivamente em confissões públicas de seus defeitos e vícios e no método usado por ele para corrigi-los. Os discípulos deveriam fazer uma análise semelhante, raramente ou mesmo nunca recorrendo ao mestre para orientação. Este método guarda semelhanças óbvias com as práticas de meditação dos yogis e budistas.
Epicteto.
O famoso livro “Meditações” de Marco Aurélio sequer foi feito para publicação, sendo apenas um resumo de análises que ele escrevia sobre e para si mesmo. As exortações contidas no livro não são prescrições morais para um leitor, mas determinações que ele dava a si mesmo, conforme sua própria índole e de acordo com os objetivos que ele mesmo se impunha. Os estóicos eram famosos por ser muito tolerantes e misericordiosos com os seus semelhantes, jamais exigindo posturas de disciplina ou condenando aqueles que não as adotavam. É, portanto, absurdo creditar-lhes uma postura taciturna e crítica, a não ser com base na prática popular do estoicismo, que muito lembrava a circunspecção das ordens monásticas cristãs. Muitos estóicos, a exemplo do imperador Marco Aurélio, tinham boa condição de vida e participavam plenamente da vida social, a qual nunca condenaram. 
A idéia de que os estóicos fossem reclusos ou eremitas vem de uma confusão quanto as suas críticas dirigidas ao apego e a servidão aos bens materiais. Estas críticas eram motivadas pelo seu interesse esclarecedor em afirmar que tal apego não é necessário à felicidade, e pode tornar-se fonte de sofrimento, e não do desprezo pelos bens ou estilo de vida em si. O foco dos estóicos jamais foi a ascese do corpo ou a pobreza, mas a transformação do ponto de vista. Alguns mestres consideravam em sua auto-análise ser essencial a ruptura radical com a sociedade, e o faziam. Raramente, entretanto, o recomendavam aos seus discípulos, e lembravam que este afastamento da vida econômica e social era um traço de fraqueza pessoal em resistir ao domínio das facilidades e comodidades enganosas da vida.
O que se pregava efetivamente era a necessidade da correção intelectual e psicológica sobre a vida. Riqueza ou saúde, fama ou amizade podem esvair-se sem que o seu dono nada possa fazer. A morte atinge inexoravelmente a todos, independente de sua posição, conhecimento, respeitabilidade ou poder. A beleza que atrai agora pode esconder um caráter pérfido, e mesmo que assim não seja desaparecerá com os anos. Entendida esta transitoriedade da vida, o filósofo estóico conclui pela futilidade das amarras físicas e sociais, e se volta prioritariamente para a sabedoria que não lhe escapa nas horas de infortúnio ou de distração.
É a ilusão e o auto-engano que fazem os acidentes da vida parecerem glórias. Que dizer de um imperador cujo direito de governo e autoridade foi conferido por ter nascido? E não são maiores os méritos dos governantes eleitos, pois sendo a maioria dos homens estúpidos ou viciosos a vontade da maioria não representa qualquer superioridade. Por isso os estóicos lembram sempre do desinteresse prudente em relação a qualquer honraria. Jamais deve o homem julgar-se merecedor de elogios e glórias, pois os que o fazem podem ser apenas maus juízes, ou as glórias imerecidas, fruto do acaso. Somente o orgulho engana o homem e o faz pensar que a sua grandeza está em seu mérito. Nada, a não ser nossa opinião e nosso comportamento, está em nosso mérito. Se o nosso comportamento resulta em fracasso ou sucesso, isso tem a ver com fatores que vão desde o clima propício até a influencia de milhares de outras pessoas, e não se pode jamais imaginar que a ação individual é responsável pelos resultados.  Entendendo que muitas coisas não estão em nosso poder, os estóicos se libertam da ansiedade e da expectativa de quaisquer resultados, novamente em exata relação aos ascetas orientais.
Um estóico jamais persegue a glória, pois sabe que ela nem depende dele, nem significa qualquer coisa além da opinião alheia sobre a grandeza. Se a glória lhe cai nas mãos, como no caso de Marco Aurélio, ele a considera um acidente ou uma vontade da Providencia, não tendo em ambos os casos de que se orgulhar. Age no seu melhor para que sua posição seja bem exercida, e tem em conta que ela não é melhor ou maior do que a de um camponês ou pescador, pois o mesmo destino que lhe pôs no trono e ao pescador na sua choupana poderia ter invertido os papéis. Também não foge da riqueza ou da fama, a não ser que as considere prejudiciais ao seu estado de espírito. Age com a mesma naturalidade e imparcialidade com que agiria na pobreza e no anonimato. Respeita e honra o privilegio de que desfruta, como alguém que tem em conta algo de valor que lhe foi confiado. Nada considera seu, a não ser o que está em seu domínio, o seu próprio espírito.
Ninguém expressa melhor este sentimento de liberdade e esta resignação absoluta quanto ao que não pode ser mudado do que Epicteto. Escravo durante a maior parte de sua vida, o filósofo tinha a certeza prática de que nossos atos e méritos são limitados de todas as formas possíveis. Ele não regulava o que comia, nem a que horas se levantava, nem onde dormiria, nem o que faria durante o dia ou com quem passaria seu tempo livre. Sua vida limitava-se a obedecer as determinações de um senhor severo e compartilhar seus momentos livres com outros habitantes da casa, com os quais também não escolheu conviver. Não obstante era muito feliz e dizia que nenhum homem possuía mais liberdade que ele, já que na vida todos somos limitados por inúmeras condições da natureza e da sociedade. O homem ordinário, observava ele, geralmente é menos livre do que o escravo filósofo, pois pensa que é senhor de seu destino e está escravizado pela própria mente, repetindo hábitos mecânicos quase invariavelmente.
Tal era a sua abnegação e resignação que ele sequer sentia-se atingido pelas desgraças mais amargas, pois, dizia, não se pode lamentar contra natureza ou a Providencia. Tudo o que está fora de nosso poder deve ser aceito, o que está em nosso poder, deve ser mudado, sobre nada deve-se preocupar ou ansiar. Tão real era esta convicção que certa vez ao receber bastonadas de seu senhor, o filósofo teria comentado com serenidade: “Senhor, assim quebrarás certamente a perna do teu escravo.” Como que indignado por esta observação e porque o escravo não demonstrasse medo, o amo bateu ainda mais forte sobre a canela, que partiu-se com um grande estalo. Após os primeiros instantes de dor, e observando no amo a expressão de arrependimento, Epicteto conclui sem qualquer rancor: “Vês senhor, danificaste a tua propriedade.”
Com a imensa popularidade dos estóicos entre as classes cultas do Império Romano, é mais do que natural que os primeiros cristãos absorvessem muito desta filosofia, especialmente pelo seu caráter menos abstrato e cunho moralizador. Através do Cristianismo uma parte da filosofia estóica sobreviveu, até nós.

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