quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Yoga e Espiritismo: As tecnologias do transe.

      Georg Feuerstein foi até agora o único comentador ocidental a reunir profunda experiência prática em Yoga e o domínio intelectual da literatura em sânscrito sobre o assunto. Seu conhecimento seguro da filosofia ocidental também lhe dá uma vantagem especial sobre os autores indianos, que quase nunca conseguem transmitir as sutilezas de sua filosofia sem empobrecê-la ou fazê-la parecer esotérica. Somos, portanto, imensamente gratos ao autor da Enciclopédia do Yoga e de A tradição do Yoga, e a sua definição de yoga como a tecnologia do êxtase tornou-se com toda a razão lugar comum, fazendo apenas uma modificação de nossa parte e apresentando as técnicas comparadas de Espiritismo e Yoga como as tecnologias do transe, querendo com isto simbolizar suas técnicas exatas e eficazes de transcendência.
       Fora do desenvolvimento da tradição intelectual européia é difícil distinguir uma linha de pensamento que mereça o nome de ciência, mesmo que reconheçamos os muitos méritos de diversas doutrinas asiáticas, africanas e nativo-americanas. O Yoga é talvez a única doutrina merecedora deste título, embora ainda com diferenças essenciais do método desenvolvido entre a Renascença e a Era Moderna. A explicação para este caráter especial do Yoga está na cultura extremamente liberal da Índia, que sempre admitiu a investigação crítica, a dúvida, a diversidade de idéias e a importância do confronto entre teoria e experiência, mesmo nas épocas em que a Europa não gozava destas condições.  Se uma ciência pode, além disto, ser medida pelo seu poder prático de modificar a realidade, então o Yoga merece ainda mais o título, pois os seus efeitos concretos são indubitáveis.
      Todas as religiões da Índia adotam o Yoga, único ponto em que concordam, quando ademais estão em conflito quanto a existência de Deus ou dos deuses, de quem e como é ou são as divindades, e quais as suas relações com o mundo. Somente o Yoga impôs-se por força dos fatos que ele produz como unanimidade, apesar das distintas interpretações que cada sistema aplicou a ele. O Budismo, ao passo que rejeitou simplesmente tudo da religião indiana, exceto a idéia de karma/reencarnação, adotou todas as técnicas de Yoga: a meditação, os mantras, os exercícios respiratórios e físicos, o pragmatismo e o empirismo. Os persas, geograficamente próximos da Índia, sempre receberam sua influência, com destaque para o Yoga. Enquanto a religião Islâmica rechaçava qualquer influencia filosófica ou teológica, os místicos persas abraçavam o Yoga, absorvendo suas técnicas de transe e com elas constituindo o Sufismo, a mística muçulmana.
     Os exercícios espirituais que não possuem nenhuma influência do Yoga testemunham igualmente ao seu favor pela imensa semelhança que revelam para com ele. O Estoicismo, a mística espanhola de Ignácio de Loyola e Santa Teresa D’Ávila, os pietistas, os quakers, os taoístas e os profetas hebreus, todos os grandes místicos compartilham o amor ao silêncio e ao isolamento, o ascetismo e a sobriedade, a concentração e a adoração que elevam a alma ao estado de êxtase. Reunindo todas as técnicas utilizadas por todos estes grupos, quase sempre com grande superioridade, devido ao estudo milenar e ininterrupto que os sábios indianos lhe dedicaram, o Yoga é o vértice do conhecimento e da prática mística de toda a humanidade.
       Quanto aos praticantes, é indiferente se são ateus ou crentes, se oram para um santo vivo ou fixam-se somente em um som, se fazem esforços moralizadores ou se dedicam-se ao acúmulo de poder (os siddhis), todos concordam que o conhecimento relaciona-se à lei natural, não estando subordinado a crença. Naturalmente, cada praticante tentará justificar suas convicções pessoais dentro de seu método meditativo ou de ascese, mas concederá sempre que a técnica terá ao menos alguma eficácia para qualquer usuário. Somente o materialismo impede a prática do Yoga, pois sendo a ciência do espírito, fundada na investigação empírica do fenômeno místico e iluminativo, é impossível e ilógico exercê-lo sem estar-se convencido de uma realidade espiritual. Isto o praticante do Yoga não toma como dogma, mas como evidência derivada dos estágios mais elementares dos exercícios. Trabalhando a energia mental e sutil concentrada nos chacras, modificando sua sintonia espontaneamente através da disciplina respiratória, postural e psicológica, dominando os instintos e desejos através da intenção fortalecida pelos exercícios de controle psicossomático, o yogi se certifica empiricamente da sua própria transcendência. Não existe nenhuma postulação da existência do espírito. Ela é simplesmente constatada e observada, tornando-se uma obviedade para os yogis.
O yoga das academias não lembra muito o dos ascetas indianos.
         Uma outra característica marcante do Yoga é a sua ênfase no livre-arbítrio. Mircea Eliade, o grande historiador das religiões, diagnosticou imortalidade e liberdade como os conceitos centrais do exercício iluminativo, e estava completamente correto ao fazê-lo. Ao contrário dos pensadores abstratos indianos, que eventualmente defendem uma visão de mundo determinista, o Yoga, bem como o Budismo e outros derivados, pressupõe e prescreve a liberdade por questão de princípios. A idéia de domínio sobre o corpo e a mente, de uma técnica disponível a todos, sem quaisquer privilégios, é sumamente libertária e coaduna-se inevitavelmente com a convicção de que o destino pessoal está em poder do indivíduo.
        Jamais vingou entre os místicos indianos a idéia de Graça, como uma salvação por eleição divina. O esforço pessoal e a conseqüente responsabilidade são os únicos elementos reconhecidos no processo iluminativo. O Budismo, por exemplo, é enfático ao afirmar que o seu caminho de oito passos é “perfeitamente praticável”. Ressaltando este caráter pragmático e menos dependente de crenças e dogmas, os yogis de diversas escolas são unânimes na sua convicção de estarem de posse de uma técnica eficaz, no sentido pleno da palavra. Não existe motivo teórico ou moral para a prática. Nenhum yogi concordaria que a sua adesão ao método foi provocada por argumentação, sugestão ou imposição religiosa ou filosófico. Como bons empiristas, os ascetas indianos só reconhecem o motivo técnico para a prática: “Praticamos porque funciona. Recomendamos porque traz resultados.”
       Mas em que consistem estes resultados? É o que todos se perguntam. Poderíamos dizer resumidamente que o Yoga se divide em aspectos físicos, psicológicos e espirituais. No aspecto mais propriamente físico o Yoga objetiva comprovar a completa submissão do corpo ao espírito. Esta etapa, embora introdutória, é comumente supervalorizada, especialmente no ocidente, porque os resultados visíveis da ascese são geralmente muito impressionantes, incluindo resistência ao frio e ao calor, capacidade de jejum prolongado, diminuição drástica das horas de sono por dia, resistência a dor, vigor e disposição ampliados, além da reconhecida capacidade de sustentar posturas desconfortáveis.
       Numa espécie de plano intermediário entre a mente e o corpo estão os exercícios respiratórios, que objetivam refinar o domínio do espírito sobre as funções físicas e mentais. A respiração é a interface físico-psíquica por excelência, pois ela é uma função intermediária entre os atos involuntários e os voluntários. Ao passo que qualquer pessoa está ciente de sua capacidade de alterar o próprio ritmo respiratório, a maioria das pessoas vive sem o fazer, a semelhança dos animais que respiram inconscientemente. O controle e a conscientização respiratória têm assim o duplo papel de revelar este elemento voluntário nos atos aparentemente involuntários e exercitar.
       Fio da navalha que separa a matéria do espírito, a respiração é o elemento chave para equilibrar a relação entre estes princípios. Se ela é automática, o indivíduo está entregue ao instinto e aos desejos animais, na fase inicial do seu progresso espiritual, se ela é profunda, serena e benéfica, a inteligência predomina sobre o instinto e a vontade sobre o impulso. Esta percepção não é exclusiva dos yogis, senão um reflexo do senso comum sobre o ritmo respiratório. Em qualquer lugar ou época uma respiração descompassada, ofegante, o ronco e a apnéia noturna, ou até em vigília, são sinais de uma saúde comprometida e uma vida em desequilíbrio.
     Controlando uma função tão aparentemente involuntária quanto a respiração, aumentam em muito as chances de controle da mente, o próximo passo do Yoga. Inaugurando a psicologia profunda três mil anos antes de Freud, os yogis certificaram-se de que a mente é assaltada por conteúdos simbólicos, relacionados a memórias, hábitos e desejos, geralmente inconscientes. Aqui também observa-se a uniformidade das práticas espirituais, pois todas elas em todos os países diagnosticam esta flutuação incontrolada da mente como o maior desafio a concentração, a oração e a meditação. O Yoga estabelece a disciplina física (incluindo sexual e alimentar) e respiratória como os pré-requisitos do saneamento psicológico, pois a vontade se fortalece pela ascese, e a consciência acostuma-se à vigília sobre os atos involuntários. Paralelamente é urgente a transformação ética do sujeito, sem o que a consciência de culpa e o estímulo constante aos vícios de que é portador permanecem em espaço confortável. Pela força dos elementos atávicos do automatismo humano, o relativismo moral é sempre uma ilusão, pois o nosso caráter primitivista impõe-se invariavelmente sobre as propostas salutares e equilibradas. Urge assim uma reforma moral imediata e permanente, para que o peso dos condicionamentos passados (karma) se transforme em herança positiva através da ação meritória.
       Pode-se dizer que estas três etapas já garantem o sucesso do yogi, e conduzem seguramente às demais. O cuidado e estado de alerta constante em relação ao comportamento físico, respiratório e a conduta moral transformam o sujeito de um repetidor inconsciente dos instintos e condicionamentos adquiridos a autor livre e ciente de todos os seus atos. A disciplina mental avança assim para a meditação, que é lograda sem maiores esforços quando a vontade já está fortalecida pela conduta reta e esmerada. A conscientização quanto ao corpo, a respiração e a conduta ética também dão à consciência um poder de concentração inusitado, pois ela habituou-se ao esforço de vigilância, não sendo nem ludibriada pelo inconsciente nem cedendo aos primeiros sinais de fadiga em convite ao desforço. A mente focada pela meditação adquire clareza e profundidade, constância e desenvoltura do “lixo mental” que obstrui a mente destreinada. Resolvem-se assim problemas mais sérios, possibilitam-se os esforços mentais prolongados e a manutenção de um padrão mental elevado, livre dos empecilhos e tropeços a que estão sujeitas as mentes entregues aos automatismos e desejos, tão cegos quanto caóticos.
      O homem moderno aprendeu com a psicanálise a existência dos elementos involuntários e inconscientes, e entregou-se passivamente a este diagnóstico, acreditando estar em seu poder apenas a aceitação do próprio descontrole sobre si. Abandonando a si mesmo a este “estado de natureza”, viu-se animalizar enquanto a tecnologia escalava os ápices do progresso material. Quão infantil não é este pretenso homem civilizado comparado ao asceta de trinta séculos atrás, que não parou fascinado diante da descoberta dos seus determinismos inconscientes, mas educou a vontade através de ingentes esforços, intelectualizando a matéria e trazendo a luz da consciência as marcas da memória atávica que até então o regiam, esperando apenas que ele amadurecesse o bastante para fazê-lo por si mesmo.
      O Espiritismo tem muito a ver com o Yoga. A começar pela sua ênfase na predominância dos fatos sobre a crença, da razão sobre a tradição. O Espiritismo, também antes da psicanálise, diagnosticou com segurança a função inconsciente da mente, e detalhou a sua causa na vaga reminiscência do pretérito e na influência sutil exercida por outras mentes. Estabeleceu diversas técnicas de vigilância visando diminuir este predomínio do inconsciente sobre o consciente, coroando a oração como estágio meditativo avançado de elevação do padrão vibratório da mente, exigindo para isto o abandono das fórmulas automáticas das “rezas” e impondo o ato espontâneo, criativo e sincero da comunhão sentimental e intelectual com o plano do espírito. Desenvolveu uma ciência psico-físico-espiritual sobre os fluidos energéticos de natureza mental e semi-mental que nos caracterizam a vida, identificando os centros de força nos plexos solares nos mesmos locais que os yogis identificaram os seus chacras, relacionando as doenças destes centros às marcas provocadas por erros trágicos em vidas passadas, e incentivando a mudança especial de conduta em relação aos órgãos e funções lesadas, quais sejam: relacionamentos estáveis e dignos para os portadores de esterilidade ou disfunções sexuais, temperança alimentar e emotiva para os deficientes do sistema digestivo, atitude compassiva para os que apresentam disfunções cardíacas ou imunológicas, disciplina para os que padecem dos males da fala e da respiração, responsabilidade para os atingidos por transtornos psíquicos.
         Alargando o campo de estudo e esclarecimento sobre as relações entre vontade e intelecto (espírito) energias e hábitos (mente) e saúde física (corpo), o Espiritismo também reproduziu a noção yogi de controle voluntário das formas-pensamento, a fluidoterapia e a manipulação direta das ondas mentais que nos constituem a realidade imediata (aura), popularizando inusitadamente a prática do passe como recurso de transformação magnética e da “sintonia” como método garantido de controle do fluxo psíquico, regrando e aperfeiçoando os antigos hábitos de invocação das musas e gênios inspiradores. Na aplicação do passe, na reunião mediúnica ou no simples culto evangélico o Espiritismo desenvolveu a prática da focalização da mente em padrão superior, contribuindo sobremaneira para isto a conscientização quanto às idéias e emoções exteriores que tomam de assalto o indivíduo interessado no próprio melhoramento, e que se tornam desta forma compreensíveis, perdendo a sua influência na medida em que o indivíduo não mais confunde-se quanto a sua proveniência.

      Concluímos, portanto, que o Espiritismo reproduz as práticas e conceitos das tradições místicas e ascéticas universais, com particular semelhança em relação ao Yoga, e que o caráter desmistificado de ambas as doutrinas, juntamente com o fato de atingirem tantos pontos de concordância, contribui em muito para a validação de ambos como métodos, senão científicos, ao menos cientificamente eficazes.

9 comentários:

  1. Muito feliz na colocação, a essência real e verdadeira é sempre a mesma.

    Namastê
    Paulo Roberto

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  2. Obrigado pela profundidade! Belo trabalho!

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  3. Muita teoria mas nenhuma prática no espiritismo não há meditação, infelizmente não encontramos nenhum médium que teve experiência mística real

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    1. Eu tive uma experiência mística real, procure na internet " História
      Real de iluminação e Kundalini " sem aspas,, concordo com vc,,, o espiritismo não ensina nada sobre meditação , porque não sabe,, e também não sabe nada sobre kundalini

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  4. Fiquei maravilhado com o texto. Estou praticando a Sahaja Yoga a menos de 02 meses, adorei os ensinamentos e vivenciando os resultados muito rapidamente, sou espírita e tenho certeza que a doutrina corrobora e contribui nessa identificação e afinidade, e uma não desabona a outra, o texto confirmou o que eu estava sentindo e pensando, esclareceu e identificou a contribuição de cada doutrina/ciência, sem mais...pois ele fala por si, indicarei e tomarei-o como referência. Muito obrigado Humberto!

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  5. O espiritismo não reproduz nada da yoga, pura balela,, até hoje não produziu nenhum iluminado,, não ensina a controlar a mente e transcendê-la,, ainda tá no B-A-BÁ, espiritual

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    1. Concordo com o Anônimo o espiritismo tá longe de saber o que é samadhi, kundalini

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  6. Paz e luz irmão!! Gratidão pela reflexão iluminada!! Tudo está conectado!! O Amor é!! Sou espírita e tenho a yoga como luz!! Conheci recentemente a Sahaja Yoga e logo vi como tudo se alinha, como nada no universo é desperdiçado...quantos iluminados em tantos pontos do mundo!! O amor e o perdão nos une num laço eterno de luz!!
    Ao irmão que disse que o espiritismo não produziu nenhum iluminado, meus mais sinceros sentimentos de paz!! O espiritismo é doutrina que vem esclarecer e consolar e não tem propósito de produzir ninguém...cada um é senhor de si, da sua consciência!!
    Namastê!!

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  7. Paz e luz irmão!! Gratidão pela reflexão iluminada!! Tudo está conectado!! O Amor é!! Sou espírita e tenho a yoga como luz!! Conheci recentemente a Sahaja Yoga e logo vi como tudo se alinha, como nada no universo é desperdiçado...quantos iluminados em tantos pontos do mundo!! O amor e o perdão nos une num laço eterno de luz!!
    Ao irmão que disse que o espiritismo não produziu nenhum iluminado, meus mais sinceros sentimentos de paz!! O espiritismo é doutrina que vem esclarecer e consolar e não tem propósito de produzir ninguém...cada um é senhor de si, da sua consciência!!
    Namastê!!

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