segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os mistérios de Elêusis

Elêusis é uma vila antiquíssima, mesmo para os padrões gregos, nas proximidades de Atenas, famosa por seu santuário dedicado a Deméter e pelo culto de iniciados que ali se formou. Estes iniciados dos mistérios eleusianos eram frequentemente pessoas de grande renome e faculdades destacadas, de modo que a inferência geral de que o culto selecionava as almas mais nobres da nação era inevitável. Só este precedente já seria suficiente para garantir a fama do culto de Elêusis, em analogia com as sociedades secretas modernas, que ao reunirem líderes, artistas e cientistas sob o seu brasão acabam por adquirir uma aura especial.
Cavernas de Elêusis, onde os rituais ream realizados.
O culto torna-se ainda mais interessante quando nos notificamos de suas especiais características e simbolismos, e de que a sua influencia foi incomparavelmente maior sobre as personalidades da elite intelectual grega do que sobre a elite política e econômica. Enquanto o oráculo de Delfos era o ponto de peregrinação dos reis e celebridades na busca de orientação, com suas profecias geralmente divulgadas sem maiores precauções, o santuário de Elêusis prescrevia um voto de segredo absoluto sobre todos os seus preceitos. Do público geral somente o mito de Perséfone era conhecido, e sem a sua chave de leitura ele não passa de uma história parcamente interessante. O motivo principal deste olvido está no rigor com que eram punidos os levianos que divulgavam os mistérios para o público geral. Em caso de evidente má fé o traidor poderia ser punido com a morte, mas raramente se chegava a tanto, bastando na maioria das vezes o banimento da Ática, confisco dos bens e propriedades e o desprezo e repudio públicos. É notório o exemplo de Alcibíades, que bebeu em excesso e imitou para uma plateia também embriagada as cerimônias iniciáticas, tendo recebido todas as punições sociais e materiais cabíveis.
Com isto perderam-se os princípios essenciais e as ideias mais complexas do culto, especialmente aqueles que se denominavam altos mistérios e eram restritas aos veteranos.  A falta de registro e a fidelidade ao voto de segredo, não impedia, contudo, que os seus membros se declarassem publicamente.  Grandes nomes da vida espiritual grega, como Ésquilo, Sócrates, Platão e Xenofonte, sabidamente membros do culto, garantiam-lhe a fama, apesar de serem desconhecidos os seus postulados. Posteriormente, com a ascensão de Roma, os mistérios tornaram-se vulgares e empobrecidos, sendo palco de cerimônias pomposas das quais tomavam parte os imperadores e senadores. Desta época provêm quase todos os detalhes conhecidos sobre as cerimônias, mas elas já não correspondem senão palidamente ao que o culto de Elêusis pregava em sua época áurea, entre 800 e 200 a.C. Cícero, o maior e mais completo intelectual romano, conheceu Elêusis já tardiamente, em sua fase de declínio, e ainda assim afirmou que os seus mistérios constituem a maior contribuição de Atenas para a humanidade.
Com todas as restrições à divulgação dos mistérios, restam apenas duas fontes de acesso ao seu ensino original, a saber, o mito de Perséfone e a comparação das doutrinas de seus membros conhecidos. O primeiro é público, e faz parte do acervo mitológico e religioso da Grécia, enquanto a doutrina dos membros famosos apresenta interessantes similaridades em pontos peculiares, dando indícios razoavelmente confiáveis do que os seus membros compartilhavam.
De uma forma muito resumida faremos uma exposição da filosofia e religião de Elêusis, como chave de leitura para o mito de Perséfone apresentado em seguida. 
     Basicamente tudo nos mistérios é derivado do processo de reencarnação, comparado às estações do ano e às fases da vida. Este processo é entendido como o intercâmbio entre dois mundos, sendo o mundo das almas a pátria verdadeira e original, enquanto o mundo material seria uma extensão ou subproduto do mundo espiritual. A vida no mundo material seria uma espécie de punição, comparada ao outono e inverno, quando a natureza morre e enfrenta a dureza do frio e da desfolha. A vida no mundo espiritual seria a primavera e verão da alma, e o indivíduo só seria feliz neste outro mundo. O objetivo da vida material seria o de enfrentar agruras e batalhas para o fortalecimento do espírito, assim como o inverno serve prepara a natureza para um renascimento na primavera, selecionando neste processo as plantas e animais mais fortes e hábeis. O problema do mundo material não está, portanto, nos seus desafios, que proporcionam o crescimento, mas sim no esquecimento que as almas fracas experimentam em contato com a matéria. Os iniciados de Elêusis não são ensinados a crer neste processo, mas se “lembram” sozinhos desta realidade por força de sua grandeza espiritual. Acreditavam também que eram atraídos uns aos outros por  similitude, como estrangeiros no mundo material que se reconhecem facilmente pelas suas diferenças em relação aos nativos. Era esperado naturalmente que não se espantassem jamais com os ensinos, mas que os encarassem como óbvios ou até já os conhecessem antes de serem admitidos no culto. Outro sinal característico dos mistérios era a ênfase na pluralidade dos mundos habitados, na possibilidade de se transmigrarem as almas para estes outros mundos, o que os conduzia a teoria da panspermia, ou seja a disseminação universal da vida ao redor de todas as estrelas do universo.

        Quando Emmanuel nos apresenta as personagens Lívia e Basílio em seu magnífico romance Ave Cristo, ele nos dá a entender que o ancião teria tido contato com os mistérios de Elêusis e de Alexandria, e a canção das Estrelas revela não apenas um conhecimento exato de Emmanuel acerca dos mistérios como nos traz contribuições ímpares para o seu resgate. Eis a primeira estrofe da canção:

Estrelas – ninhos de vida,
Entre os espaços profundos,
Novos lares, novos mundos,
Velados por tênue véu.
Aladas rosas de Ceres,
Nascidas ao sol de Elêusis,
Sois a morada dos deuses,
Que vos engastam nos céus.

         A canção segue com ricas revelações sobre a harmonia universal, o propósito das lutas terrenas e exaltações às virtudes estóicas da paciência, abnegação e retidão. Todos são cristãos em essência, mas há boas razoes para crer que eram elementos retirados do culto de Elêusis, motivo pelo qual Emmanuel deu especial ênfase a ele no primeiro parágrafo. Vejamos, as moradas celestiais estariam “veladas por tênue véu”, exatamente como os eleusianos pregavam. As almas mais antigas e experimentadas não fariam esforço para remontar pela razão, memória ou sugestão os pontos essenciais do conhecimento que tinham no mundo espiritual. “Aladas rosas de Ceres” é talvez o verso mais revelador, já que Ceres é o nome romano para a deusa Deméter, adorada no culto de Elêusis. Por que Basílio teve especial interesse em dedicar sua canção aos mundos espirituais à deusa Ceres, a princípio responsável pela agricultura?
Os únicos que viam um papel diferenciado em Ceres ou Deméter eram os iniciados de Elêusis. O próximo verso confessa diretamente a proveniência da informação, já que as estrelas não poderiam nascer literalmente em Elêusis. Só podemos supor que o autor está se referindo à revelação feita naquele local sobre estas coisas. “Sois a morada dos deuses, que vos engastam nos céus” coincide também com o ensino dos espíritos quanto à formação das galáxias e sistemas estelares sob a direção dos espíritos superiores, aqui entendidos como os deuses. Lembramos que muitos iniciados, incluindo Sócrates e Platão, alegavam manter contato com os deuses e daímones, estes últimos correspondendo a intermediários entre os deuses e os encarnados. Platão também afirma que os deuses são almas de homens como nós, desenvolvidas até a perfeição, e que por nossa vez seremos também deuses, conforme se observa nos trechos que destacamos no artigo anterior sobre a “mediunidade e a literatura clássica”.
         Com todo este aparato de leitura histórico, sutilmente confirmado por Emmanuel, podemos abordar com segurança o mito fundador dos mistério.
         Deméter, deusa da agricultura e da fertilidade, vivia feliz com sua filha Perséfone, um verdadeiro encanto do Olimpo. A jovem era perfeita e despertou o desejo de Hades, senhor do mundo dos mortos. Este, com a permissão de Zeus e consentimento dos demais deuses, raptou Perséfone e a levou para o mundo das sombras subterrâneas. Deméter ficou revoltada com o rapto da filha e com o consentimento dos demais deuses, e afastou-se do Olimpo, indo parar em Elêusis. De lá a deusa puniu todo o mundo com uma seca tremenda que ameaçou com a fome todos os seres e matou o gado que era sacrificado aos demais deuses. Arrependido, Zeus pediu a Deméter para extirpar a maldição, e em troca devolver-lhe-ia a filha. Desta vez foi Hades quem se sentiu traído, mas não podendo contrariar a ordem de Zeus entregou Perséfone. Antes de despachá-la do mundo inferior, contudo, deu-lhe de comer sementes plantadas lá, o que criou em Perséfone um vínculo com o mundo da escuridão. Assim que Perséfone retornou ao Olimpo, Deméter perguntou-lhe se havia comido algo de lá, e ao ouvir a confirmação foi tomada de profunda tristeza, embora nada mais pudesse ser feito para remediar o feitiço. Perséfone ficou assim condenada a passar metade do ano nas sombras de Hades, e a outra metade estaria liberta para viver com os demais deuses no Olimpo. Analogamente, o mundo passaria a apresentar uma época de declínio e infertilidade (outono e inverno), quando Deméter entristecida pela partida da filha amargaria a solidão, e uma época de frutificação e claridade (primavera e verão), correspondente ao retorno de Perséfone e a alegria de Deméter, que distribuiria então pelo mundo suas bênçãos.
         O mito é rico de significado, mas não chega a ser difícil de interpretar. Perséfone está vinculada a dois mundos totalmente distintos, a morada de felicidade do Olimpo e o exílio sacrificial no mundo inferior da escuridão e da dor. Este movimento não era realizado uma vez, mas inúmeras, indicando que a alma estaria repetidamente alternando uma existência nas alturas e outra nas trevas inferiores.  Este estágio no mundo de sofrimento tinha, contudo, o seu lado positivo, pois mesmo com um período de infertilidade no ano, a alegria de Deméter ao rever a filha criava anualmente uma época de grande abundancia para todo o mundo. A alma, similarmente, aprenderia nas agruras do mundo material a amar e valorizar as belezas da pátria espiritual. A saudade com que Perséfone aguarda o fim de seu período nas sombras também é muito representativa. Ela indica a saudade do espírito exilado na carne, que se lembra de suas origens sublimes e não se entrega à existência vulgar dos habitantes do mundo inferior. Perséfone é eternamente uma estranha no abismo do Hades, e assim também as almas nobres jamais se rebaixam ao nível do mundo das ilusões materiais, mas suspiram por seu retorno à pátria verdadeira, tudo suportando com desinteresse e indiferença. Perséfone jamais se deixa confundir com os habitantes do Hades, sendo em todos os aspectos a imagem da perfeição, candura e generosidade a contrastar com o vale dos dementados e agonizantes. Este seu papel no mundo inferior é o de atenuante dos seus horrores, pois a partir de sua estadia lá existe sempre a esperança de encontrá-la em meio ao país da amargura e do esquecimento.
         Muito mais poderia ser dito sobre o mito de Perséfone e as sutilezas dos mistérios de Elêusis, mas a nossa ignorância ultrapassa em muito o que sabemos, de modo que é arriscado tentar especulações mais elaboradas, correndo-se sempre o risco de afastarmo-nos dos fatos perdendo-nos no devaneio de hipóteses inautênticas. Fica, portanto, o convite à releitura destes poucos elementos divulgados, enquanto novas e mais completas revelações de historiadores e dos próprios espíritos seguem o seu passo lenta, mas seguramente.

Referencia:

MYLONAS, George. Eleusis and the eleusian mysteries. Princeton: Princeton University Press, 1961.

2 comentários:

  1. Humberto,

    Muito oportuna sua descrição sobre esses mistérios. Em uma citação em inglês de Cícero sobre os mistérios, podemos ler:

    "...so in very truth we have learned from them the beginnings of life, and have gained the power not only to live happily, but also to die with a better hope." (Cicero, Laws II, xiv, 36)

    O que implica que eles aprendiam não só como bem viver a vida presente, mas tb o que a eles estava reservado na vida futura. E, provavelmente, os ensinamentos deveriam destoar do conhecimento vulgar sobre os deuses, daí porque eram tomados como mistérios.

    Mas, tb não tinha prestado suficiente atenção a sua citação de Emmanuel, que sempre nos comove por seu conhecimento. Pena que não puderam os Espíritos descrever mais sobre aquela época, fato que seria importante para o aprofundamento e o conhecimento do que os mistérios seriam em realidade.

    Forte abraço,
    Ademir Xavier
    eradoespirito.blogspot.com

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  2. Sempre espero encontrar essas palavras, como um segredo, que no fundo nunca foi um segredo. Obrigada.

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