sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Visão histórica e cultural do Espiritismo


     Até aqui foram apresentados pequenos ensaios sobre religiões e filosofias de diferentes povos, com destaque para a Antiguidade, objetivando responder as nossas próprias exigências traçadas no texto introdutório sobre a perspectiva crítica do Espiritismo. Reunimos algumas poucas informações sobre assuntos diretamente ligados à abordagem culturalista e metafísica do Espiritismo, mas não apenas faltam estudos específicos sobre o Espiritismo na África, na Rússia, no xamanismo americano, australiano ou indonésio, como seria preciso um tratamento competente sobre os temas que bisonhamente apresentamos. Não obstante, nosso esforço principal era o de ilustrar o quão viáveis são estes estudos, e o quanto se poderia avançar em história e filosofia espírita se levarmos a sério a sua pretensão de universalidade, não considerando-o um produto do século XVIII.
         Por outro lado, e ao mesmo tempo, toda a teoria científica, paradigma filosófico e descoberta de fenômenos até então ignorados ou mal interpretados não apenas pode, mas precisa estender a sua validade para além de quaisquer limites temporais ou geográficos. O Espiritismo o faz sem esforço e com muita força de persuasão; diria até que o faz melhor do que qualquer outra filosofia, na medida em que, sem excluir nenhum dos problemas e fenômenos compreendidos nas demais, tem a vantagem de explicar rigorosamente um amplo espectro de outros problemas e fenômenos patentes e até então sem o mínimo tratamento conceitual.
         Do ponto de vista teórico, ensaios sobre história do pensamento, filosofia ou religião comparada atestam de forma excepcional a abrangência e consistência de uma doutrina; e do ponto de vista prático este contato interpretativo com outras tradições viabiliza a aproximação, a compreensão e a tolerância para com elas. Isso já é verdade até para as perspectivas reducionistas, que negam a base das filosofias ou religiões alheias por reduzi-las a um elemento comum. Com as teorias afirmativas, como é o caso do Espiritismo, este efeito é potencializado ao extremo, já que as tradições alheias não são reduzidas segundo um elemento comum, mas integralmente afirmadas e valorizadas em seus valores essenciais. As inúmeras leituras espíritas sobre o Velho e o Novo Testamento demonstram bem este caráter positivo de uma teoria mais abrangente que explica mais sem desmentir as alegações do sistema anterior. Os santos e profetas continuam santos aos olhos do Espiritismo, suas revelações e experiências não são desmentidas, mas complementadas. E como bem sabemos, o mesmo pode ser aplicado ao Hinduísmo, Budismo, Taoísmo e ao Islamismo.
         Um dos motivos principais de fazermos aqui uma pausa para esclarecimento está na impressão que o site possa ter transmitido, por nossa culpa, de que o propósito desta coletânea seja enciclopédico. Se isso fosse verdade não estaríamos oferecendo serviço algum, visto que todos os ensaios aqui desenvolvidos não superam em detalhamento as enciclopédias virtuais mais vulgares e às quais hoje todos têm acesso, como a Wikipédia. Nosso objetivo não é de forma algum apresentar uma enciclopédia da filosofia e da religião, ou sugerir que o leitor deva se ilustrar sobre todos estes temas a fim de fazer um estudo filosófico do Espiritismo. Ao contrário, nosso único propósito é demonstrar que, pela sua própria natureza fenomenalista, racionalista e fraternalista, por sua combinação não sectária de ciência, filosofia e religião, o Espiritismo pode ser “enxergado” em toda a parte, o que faz dele uma verdadeira e completa cosmovisão.
         Outra questão relevante neste “balanço” do site até aqui é a prioridade dos estudos sobre a Antiguidade. Um estimado amigo que analisou estes ensaios nos chamou atenção para o fato de que alguns deles não são voltados nem para o Espiritismo, nem para a filosofia, o que em princípio fere a proposta temática deste site. Só nos resta anuir completamente. Afinal o que o judaísmo arcaico ou a filosofia milenar chinesa podem ter a ver com o Espiritismo? Nada! O Espiritismo, por outro lado, pode e deve ter a ver com as experiências religiosas e teóricas mais antigas, pois é ele quem pretende englobar as doutrinas isoladas e superar suas contradições num modelo mais abrangente. Não se pode esperar que tradições cuja intenção básica seja a de bastarem-se a si mesmas dêem partida a iniciativas agregadoras. É ao Espiritismo que cabe ir de encontro a elas, pois é ele quem está constituído como proposta explicativa e complementadora.
         Caso esta seja realmente uma necessidade ou pretensão da doutrina espírita, ela não precisa se desgastar no estudo dos detalhes de uma história da filosofia ou uma história da cultura. Basta-lhe demonstrar sua aplicabilidade aos princípios gerais, e para isso nada é mais efetivo do que retornar à matriz de cada cultura e linha de pensamento. Se levantamos uma correspondência sólida entre o Espiritismo e as bases do pensamento indiano, por exemplo, não é necessário um estudo pormenorizado de inúmero autores desta tradição, pois as afirmações válidas para a matriz podem ser generalizadas com alguns reparos às suas ramificações.
         Na teoria interpretativa do Espiritismo parecem estar pressupostas duas teses fundamentais sobre a cultura: a primeira se refere à universalidade da revelação espiritual em todos os povos e épocas, o que é uma tese arrojada, mas possível de sustentar diante das similaridades entre crenças e filosofias religiosas; a segunda se refere à absolutidade do cristianismo, ou seja, a capacidade do Cristianismo de abranger todas as outras crenças e filosofias ou ao menos apresentar uma equivalência satisfatória. Embora estas teses não sejam diretamente declaradas elas podem ser inferidas de tudo o que o Espiritismo prega no âmbito de sua história da cultura. São paradigmáticas as palavras do Espírito de Verdade no sexto capítulo do Evangelho segundo o Espiritismo: “...reuni o bem esparso no seio da humanidade”.
         Este posicionamento possui, como qualquer definição, um aspecto agregador e um aspecto segregador, pois o conceito mais abrangente precisa também separar e distinguir para não se confundir com uma afirmação vazia. A sua parte positiva é que, ao reconhecer o gérmen de verdade na essência de todas as filosofias humanas, reúne-as e dignifica-as. A sua parte mais delicada e possivelmente danosa é que a afirmação de um caráter especial do Cristianismo pode dar a entender que as demais crenças e filosofias não passem de formas primitivas e/ou decadentes dele. Expurgar esta impressão é tarefa do Espiritismo bem como do Cristianismo, ao que são obrigados pela sua teoria explicativa abrangente, e esta tarefa só pode ser posta em prática através de uma atitude legitimadora diante das demais crenças e religiões.
         É comum ouvirmos expressões de suposta tolerância por parte dos espíritas, discriminando sua própria doutrina a título de exemplo de humildade. Este comportamento não é mais racional ou louvável do que o de considerar as demais posições como estágios infantis da religião, correspondentes ao espírito menos amadurecido dos que as professam. Não é preciso desvalorizar-se para valorizar os outros, nem negar sua própria virtude para agir com dignidade. Espiritismo e Cristianismo podem com toda a segurança afirmarem a sua autoridade universal enquanto tomarem todos os seres humanos por filhos de Deus, louvarem todos os santos, profetas e guias espirituais de outras religiões e posicionarem os praticantes dignos de outras crenças na dianteira dos praticantes indignos de sua própria. Com isto distinguem-se, no geral, de quase todas as outras doutrinas filosóficas e religiosas, que junto a excelentes verdades guardam quase invariavelmente o sectarismo das idéias de origem puramente humana.
A doutrina oficial do catolicismo e o seu escalão político sediado no vaticano são um perfeito exemplo de quão personalista pode se tornar a religião. O próprio Cristianismo não sobreviveu à soberba da teologia exclusivista, dos rituais espúrios e hierarquizados, da máquina econômica e política da igreja romana. Que pensar de uma filosofia que ponha os seus adeptos no paraíso e os seus opositores no inferno; aos seus a verdade e aos demais o engano e a mentira? E por mais absurdo que seja não é assim que procede a maior parte das religiões sob a Terra?
         É, portanto, perfeitamente razoável afirmar que o Espiritismo, ou outras doutrinas semelhantes, qualifica-se e distingue-se de outras crenças e filosofias pelo seu caráter progressista, universalista e crítico. Enquanto o Espiritismo toma diversas referências católicas como Francisco de Assis e Vicente de Paulo como modelos de perfeição humana, o mesmo não se pode dizer da postura católica em relação ao Espiritismo, que desde o princípio direcionou-se para a associação da prática espírita com a magia negra, a queima de livros no auto de fé de Barcelona e a discriminação ostensiva. Não há contradição em abraçar o universo da fé católica num gesto conciliador e, ao mesmo tempo, condenar a sua postura e estrutura obsoletas e anti-cristãs. Aliás, chega a ser uma redundância lógica pregar a tolerância e repudiar o partidarismo.
         É preciso enfrentar diretamente temas deste tipo para evitar as ambigüidades no julgamento e a inconsequência de opiniões. A natureza do saber humano é progredir através da reformulação de teorias que nos ajudem a agrupar os diferentes aspectos da vida, e estas teorias não nos oferecem nada se não puderem incluir de modo proveitoso as teorias prévias. Não cabe aqui um verniz de tolerância politicamente correta que ao final se traduza em indiferença, pois se tudo é indiferente, igual ou dependente do gosto de cada um não há qualquer critério racional para efetuar um julgamento, e estamos confessando escolher com base em dogmas prévios. Uma vez que não o queremos mais, precisamos definir fronteiras e pontes claras entre as diversas estruturas de pensamento. 

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