quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O lugar do Espiritismo no pensamento brasileiro

       Ao mesmo tempo em que se insere num contexto global da história humana, o Espiritismo guarda também a particularidade de uma profunda associação com a cultura brasileira. Historicamente não se pode desconsiderar o fato de ter ele prosperado no Brasil em proporções e efeitos imensamente maiores do que em outras terras. Filosoficamente deve haver também razões para isso. Em ambos os casos, no entanto, estamos lidando com uma lacuna constrangedora em termos de pesquisa.
         Se já impressiona o fato de haver pouquíssimos estudos espíritas sobre a relação e situação de sua doutrina frente à filosofia e religiosidade nacionais, quão mais impactante não é descobrir que o Espiritismo, elemento exótico para a generalidade da cultura ocidental e que tanta influência exerce sobre a religiosidade e o pensamento brasileiros, não possui a mais rasteira menção nos tratados destinados a esgotar a genealogia cultural do país.
         Na vasta obra de Antônio Paim, o mais excelente historiador do pensamento brasileiro, não há uma única menção aos filósofos espíritas, ou tampouco ao papel do movimento espírita na construção das raízes morais e no imaginário religioso do povo brasileiro. Também nos estudos antropológicos de Meira Penna, ilustríssimo pesquisador da cultura, só se encontram referências redutivas e estereotipadas da prática espírita, para não dizer condenações preconceituosas, prejudicando assim sua análise final do espírito da nação. Estes são, apesar disto, os pensadores que rendem ainda algum respeito à religião, sendo por isso inapreciavelmente mais completos do que os historiadores e sociólogos que, por orientação ideológica marxista, excluem logo de saída o elemento espiritual da cultura, ou condenam-no como dejeto cultural do arcaísmo português e do primitivismo africano e ameríndio a ser brevemente superado.
         Este desprezo pelo papel do Espiritismo como movimento filosófico e força moralizadora da sociedade brasileira é injustificável em face da generalidade da crença na reencarnação, que é estatisticamente maior do que em qualquer outra nação ocidental, do trâmite entre religiões afro-brasileiras e catolicismo, muitas vezes mediado filosófica, teológica e socialmente pelo Espiritismo, em cujo quadro doutrinário estão santos católicos e fenômenos animistas lado a lado, da função social destacada e em franca desproporção com o seu percentual na população, exercida através de instituições de caridade e iniciativas comunitárias, e dos números expressivos do mercado editorial espírita, também discrepante com sua participação na população. Nas estatísticas atuais do IBGE os espíritas ocupam a primeira posição em anos de instrução, enquanto judeus e agnósticos/ateus disputam a segunda posição. É preciso mais do que conveniência pessoal para ignorar dados como estes e limitar-se a reproduzir o juízo herdado da Igreja ou da academia de que tudo isso não passa de uma superstição muito popular. Trata-se de uma transcrição da honestidade científica.
         Por outro lado, não se pode culpar unicamente o pesquisador que lança uma visão externa sobre o tema, se da própria tradição não surgem respostas qualificadas a este tipo de atitude. Todo intérprete tem suas peculiaridades de estilo e interesse, quando não uma ideologia própria com agenda propagandística. É necessário, portanto, que os espíritas saiam de sua área de conforto junto à própria comunidade e escrevam para o público leigo e/ou acadêmico. Enquanto esta função permanece até certo ponto discriminada no seio do movimento espírita, ora taxada como desperdício de energias, ora como perda de enfoque motivada por orgulho e pretensões mundanas do fiel, é natural que os antologistas e enciclopedistas da cultura ignorem o que só puderam conhecer indiretamente.
         Para se ser ouvido em certos meios não basta que se seja por natureza apropriado à temática, ou gozar de um direito conquistado pelo mérito no exercício das funções em questão, mas é preciso também dominar a linguagem que aquele meio exige. O Espiritismo é um movimento filosófico rico e dinâmico por si mesmo, aqueles que a ele se dedicam bem o sabem, mas ele tem falhado em dialogar com a linguagem filosófica corrente. Tem também uma vinculação profunda com a história do Brasil e com a formação da identidade nacional, mas insiste em interpretar a si próprio e se apresentar como elemento transplantado da França, sem um embate adequado com os elementos nativos que permitiram a sua rápida difusão e sua permanência. Se o Espiritismo não aclara suas origens junto às figuras estabelecidas do pensamento brasileiro à época de sua chegada ao país, como esperar que estas mesmas figuras tenham nele um ponto de identificação? Conquanto seja comum às novas filosofias o ímpeto de se destacarem da tradição como uma novidade revolucionária, é obrigatório reconhecer que nenhuma novidade se estabelece sem que o terreno esteja previamente preparado por idéias semelhantes. Kardec o fez esplendidamente em relação à cultura francesa, mas o mesmo não foi até hoje empreendido a contento pelos pensadores espíritas brasileiros.
         O que gostaríamos de oferecer neste ensaio são pequenas referenciais que auxiliem o culturalista brasileiro a enquadrar mais corretamente o Espiritismo, ou sirvam de estímulo ao pesquisador espírita/do Espiritismo na formulação de teses e coletâneas aptas a relacionar o Espiritismo ao quadro geral da cultura brasileira, com destaque para a filosofia, mas apenas porque este é o campo onde nossas limitações pessoais são menos completas.
         Primeiramente é forçoso assumir que o Espiritismo conta com poucos filósofos de profissão, ou estes não se dedicaram minimamente a estabelecer ligações com a tradição filosófica em geral. Muitas vezes os filósofos espíritas partem de uma formação autodidata focada nas filosofias francesa e antiga, talvez por um instinto mais ou menos consciente de emulação de Kardec.
Até onde sabemos, os dois únicos escritores com formação em filosofia a se dedicarem a este mister foram Carl du Prel, professor de Leipzig em fins do século XIX, e José Herculano Pires, professor de filosofia da USP nos anos 60 do século passado e membro do Instituto Brasileiro de Filosofia, também tendo atuado como professor de psicologia e sociologia. O primeiro desenvolveu um aparato filosófico e psicológico muito elaborado a partir das obras de Kant, Schopenhauer e Fries, que era complementado por estudos sobre fisiologia, hipnotismo e mesmerismo, também populares na Alemanha de fins do século XIX. A teoria de du Prel teve enorme influencia sobre Jung, que replicou a abordagem kantiana da psicologia, abrindo espaço significativo para uma ciência subjetiva do numinoso, o elemento de mistério intuído pelos limites do conhecimento humano. O segundo tratou resumidamente de Descartes, Bergson e Heidegger, identificando nos dois primeiros uma fundamentação da independência do espírito em relação a matéria, e reinterpretando o último de forma extremamente original. Para Herculano Pires, o pensamento ontológico de Heidegger na sua busca pelo modo de constituição do ser é uma descrição perfeita do espírito conforme apresentado pelo Espiritismo. As limitações de Heidegger quanto à finitude da existência humana são, para Herculano, perfeitamente válidas, na medida em que ao ser humano só estejam disponíveis as experiências desta vida, mas graças ao fenômeno da mediunidade é possível estender de forma crítica o estudo fenomenológico da existência aos aspectos não-corpóreos, mas ainda perfeitamente descritíveis pela analítica existencial. Em outras palavras, com a fenomenologia mediúnica a existência extra-corpórea passa a ser concreta, não abstrata.
Ainda é muito pouco, mas já é um começo para estudos que objetivem o enquadramento da filosofia espírita em comparação às linhas e escolas de maior renome.

         Do ponto de vista da genealogia cultural brasileira basta dizer que o Espiritismo tem ligação com todos os principais movimentos do período imperial. Por um lado bebe ele fartamente da tradição espiritual agostiniana (Pascal, Fénelon, Lammenais e o próprio Agostinho são considerados espíritos patronos da revelação espírita). Como produto francês, ao menos em certa medida, estava também perfeitamente integrado ao quadro da elite intelectual brasileira, extremamente ligada à Paris. O Espiritismo pode ainda ser referido ao ecletismo espiritualista do século XIX, com sua apologia à perfectibilidade humana, e sua tese geral de que todas as revelações guardam uma parte de verdade, e todos os movimentos históricos contribuem para a marcha do progresso dos indivíduos e da sociedade. Por fim, o Espiritismo está desde o começo ligado ao positivismo, ao liberalismo e ao socialismo franceses, todos movimentos capitais para a formação do pensamento brasileiro. Basta lembrar que eram espíritas assumidos o renomado astrônomo Camille Flammarion e o escritor socialmente engajado Victor Hugo.

Um comentário:

  1. Oi Humberto, gostaria de fazer referência a dois importantes historiadores da filosofia no Brasil que citam o filósofo paulista José herculano Pires em seus livros, são eles; Luís Washington Vita em "A filosofia contemporânea em São Paulo" e Jorge Jaime no terceiro volume de sua "História da filosofia no Brasil".

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