Georg Feuerstein foi até um dos raros comentadores ocidentais a reunir profunda experiência prática em yoga e o domínio intelectual da literatura em sânscrito sobre o assunto. Seu conhecimento seguro da filosofia ocidental também lhe dá uma vantagem especial sobre os autores indianos, que quase nunca conseguem transmitir as sutilezas de sua filosofia sem empobrecê-la ou fazê-la parecer esotérica aos olhos estrangeiros. Somos, portanto, imensamente gratos ao autor da Enciclopédia do Yoga e de A tradição do Yoga, e a sua definição de yoga como a tecnologia do êxtase tornou-se com toda a razão lugar comum, fazendo apenas uma modificação de nossa parte e apresentando as técnicas comparadas de Espiritismo e yoga como as tecnologias do transe, querendo com isto simbolizar suas técnicas exatas e eficazes de transcendência.
Fora do desenvolvimento da tradição intelectual européia é difícil distinguir uma linha de pensamento que mereça o nome de ciência, mesmo que reconheçamos os muitos méritos de diversas doutrinas asiáticas, africanas e nativo-americanas. O yoga é, talvez, a única doutrina espiritual merecedora desse título, embora ainda com diferenças essenciais do método desenvolvido entre a Renascença e a Era Moderna. A explicação para o caráter especial do yoga está na cultura extremamente liberal da Índia, que sempre admitiu a investigação crítica, a dúvida, a diversidade de idéias e a importância do confronto entre teoria e experiência, mesmo nas épocas em que a Europa não gozava destas condições. Se uma ciência pode, além disso, ser medida pelo seu poder prático de modificar a realidade, então o yoga merece ainda mais o título, pois os seus efeitos concretos são indubitáveis.
Todas as religiões da Índia adotam elementos do yoga, e este é talvez o único ponto em que concordam, quando, de resto, estão em conflito quanto à existência de Deus ou dos deuses, de quem e como é ou são as divindades, e quais as suas relações com o mundo. Somente o yoga impôs-se, por força dos fatos que ele produz, como uma unanimidade, apesar das distintas interpretações que cada sistema aplicou a ele.
O Budismo, ao passo que rejeitou simplesmente tudo da religião indiana, exceto a idéia de karma/reencarnação, adotou todas as técnicas de yoga: a meditação, os mantras, os exercícios respiratórios e físicos, o pragmatismo e o empirismo. Os persas, geograficamente próximos da Índia, sempre receberam sua influência. Enquanto a religião Islâmica rechaçava qualquer influência filosófica ou teológica, os místicos persas abraçavam o yoga, absorvendo suas técnicas de transe e com elas constituindo o Sufismo, a mística muçulmana.
Os exercícios espirituais que não possuem nenhuma influência do yoga testemunham igualmente ao seu favor pela imensa semelhança que revelam para com ele. O Estoicismo, a mística espanhola de Ignácio de Loyola e Santa Teresa D’Ávila, os pietistas, os quakers, os taoístas e os profetas hebreus; todos os grandes místicos compartilham o amor ao silêncio e ao isolamento, o ascetismo e a sobriedade, a concentração e a adoração que elevam a alma ao estado de êxtase. Reunindo todas as técnicas utilizadas por todos estes grupos, quase sempre com grande superioridade, devido ao estudo milenar e ininterrupto que os sábios indianos lhe dedicaram, o yoga é o vértice do conhecimento e da prática mística de toda a humanidade.
Quanto aos praticantes, é indiferente se são ateus ou crentes, se oram para um santo vivo ou fixam-se somente em um som, se fazem esforços moralizadores ou se dedicam-se ao acúmulo de poder (os siddhis), todos concordam que o conhecimento relaciona-se à lei natural, não estando subordinado a crença. Naturalmente, cada praticante tentará justificar suas convicções pessoais dentro de seu método meditativo ou de ascese, mas concederá sempre que a técnica terá ao menos alguma eficácia para qualquer usuário.
Somente o materialismo impede a prática do yoga, pois sendo a ciência do espírito, fundada na investigação empírica do fenômeno místico e iluminativo, é impossível e ilógico exercê-lo sem convicção em uma realidade espiritual. Isto o praticante do Yoga não toma como dogma, mas como evidência derivada dos estágios mais elementares dos exercícios.
Trabalhando a energia mental e sutil simbolizada pelos chacras, modificando sua sintonia espontaneamente através da disciplina respiratória, postural e psicológica, dominando os instintos e desejos através da intenção fortalecida pelos exercícios de controle psicossomático, o yogi certifica-se empiricamente da sua própria transcendência. Não existe nenhuma postulação da existência do espírito. Ela é simplesmente constatada e observada, tornando-se uma obviedade para os yogis.
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O yoga das academias não lembra muito o dos ascetas indianos. |
O yoga é enfatiza também o livre-arbítrio. Mircea Eliade, o grande historiador das religiões, diagnosticou imortalidade e liberdade como os conceitos centrais do exercício iluminativo, e estava completamente correto ao fazê-lo. Ao contrário dos pensadores abstratos indianos, que eventualmente defendem uma visão de mundo determinista, o Yoga, bem como o Budismo e outros derivados, pressupõe e prescreve a liberdade por questão de princípio pragmático. A idéia de domínio sobre o corpo e a mente, de uma técnica disponível a todos, sem quaisquer privilégios, é sumamente libertária e coaduna-se inevitavelmente com a convicção de que o destino pessoal está em poder do indivíduo.
O esforço pessoal e a conseqüente responsabilidade são os únicos elementos reconhecidos no processo iluminativo. O Budismo, por exemplo, é enfático ao afirmar que o seu caminho de oito passos é “perfeitamente praticável”. Ressaltando esse caráter pragmático e menos dependente de crenças e dogmas, os yogis de diversas escolas são unânimes na sua convicção de estarem de posse de uma técnica eficaz, no sentido pleno da palavra. Não existe motivo teórico ou moral para a prática. Nenhum yogi concordaria que a sua adesão ao método foi provocada por argumentação, sugestão ou imposição religiosa ou filosófica. Como bons empiristas, os ascetas indianos só reconhecem o motivo técnico para a prática: “Praticamos porque funciona. Recomendamos porque traz resultados.”
Mas em que consistem tais resultados? É o que todos se perguntam. Poderíamos dizer resumidamente que o Yoga se divide em aspectos físicos, psicológicos e espirituais. No aspecto mais propriamente físico o Yoga objetiva comprovar a completa submissão do corpo ao espírito. Essa etapa, embora introdutória, é comumente supervalorizada, especialmente no Ocidente, porque os resultados visíveis da ascese são geralmente muito impressionantes, incluindo resistência ao frio e ao calor, capacidade de jejum prolongado, diminuição drástica das horas de sono por dia, resistência a dor, vigor e disposição ampliados, além da reconhecida capacidade de sustentar posturas desconfortáveis.
Numa espécie de plano intermediário entre a mente e o corpo estão os exercícios respiratórios, que objetivam refinar o domínio do espírito sobre as funções físicas e mentais. A respiração é a interface físico-psíquica por excelência, pois ela é uma função intermediária entre os atos involuntários e os voluntários. Ao passo que qualquer pessoa está ciente de sua capacidade de alterar o próprio ritmo respiratório, a maioria das pessoas vive sem o fazer, a semelhança dos animais que respiram inconscientemente. O controle e a conscientização respiratória têm assim o duplo papel de revelar este elemento voluntário nos atos aparentemente involuntários e exercitar.
Fio da navalha que separa a matéria do espírito, a respiração é o elemento chave para equilibrar a relação entre esses princípios. Se ela é automática, o indivíduo está entregue ao instinto e aos desejos animais, na fase inicial do seu progresso espiritual, se ela é profunda, serena e benéfica, a inteligência predomina sobre o instinto e a vontade sobre o impulso. Essa percepção não é exclusiva dos yogis, mas reflexo do senso comum sobre o ritmo respiratório. Em qualquer lugar ou época uma respiração descompassada, ofegante, o ronco e a apnéia noturna, ou até em vigília, são sinais de uma saúde comprometida e uma vida em desequilíbrio.
Controlando uma função tão aparentemente involuntária quanto a respiração, aumentam em muito as chances de controle da mente, o próximo passo do yoga. Inaugurando a psicologia profunda três mil anos antes de Freud, os yogis certificaram-se de que a mente é assaltada por conteúdos simbólicos, relacionados a memórias, hábitos e desejos, geralmente inconscientes. Aqui também observa-se a uniformidade das práticas espirituais, pois todas elas em todos os países diagnosticam uma flutuação incontrolada da mente como o maior desafio da concentração, da oração e da meditação.
O yoga estabelece a disciplina física (incluindo sexual e alimentar) e respiratória como os pré-requisitos do saneamento psicológico, pois a vontade se fortalece pela ascese, e a consciência acostuma-se à vigília sobre os atos involuntários. Paralelamente é urgente a transformação ética do sujeito, sem o que a consciência de culpa e o estímulo constante aos vícios de que é portador permanecem em espaço confortável. Pela força dos elementos atávicos do automatismo humano, o relativismo moral é sempre uma ilusão, já que o nosso caráter primitivista impõe-se invariavelmente sobre as propostas salutares e equilibradas. Urge, assim, uma reforma moral profunda e permanente, para que o peso dos condicionamentos passados (karma) se transforme em herança positiva através da ação meritória.
Pode-se dizer que essas três etapas já garantem o sucesso do yogi, e conduzem seguramente às demais. O cuidado e estado de alerta constante em relação ao comportamento físico, respiratório e a conduta moral transformam o sujeito de um repetidor inconsciente dos instintos e condicionamentos adquiridos a autor livre e ciente de todos os seus atos. A disciplina mental avança assim para a meditação, que é lograda sem maiores esforços quando a vontade já está fortalecida pela conduta reta e esmerada.
A conscientização quanto ao corpo, a respiração e a conduta ética também dão à consciência um poder de concentração inusitado, pois ela habituou-se ao esforço de vigilância, não sendo nem ludibriada pelo inconsciente nem cedendo aos primeiros sinais de fadiga em convite ao desforço. A mente focada pela meditação adquire clareza e profundidade, constância e desenvoltura do “lixo mental” que obstrui a mente destreinada.
Concluímos, portanto, que o Espiritismo reproduz as práticas e conceitos das tradições místicas e ascéticas universais, com particular semelhança em relação ao Yoga, e que o caráter desmistificador de ambas as doutrinas, juntamente com o fato de atingirem tantos pontos de concordância, contribui em muito para a validação de ambos como métodos, senão científicos, ao menos de eficácia cientificamente testável.