terça-feira, 9 de julho de 2013

Mais uma análise em torno das manifestações de Junho.


Como diagnosticara Hegel, a alienação é a presença de uma consciência sem a respectiva autoconsciência. Isto é sempre muito claro quando uma sociedade está perfeitamente ciente de suas mazelas e desafios, falhando simultaneamente, contudo, em interiorizar esta consciência ao modo de responsabilidade.
O drama de tal alienação se manifesta particularmente nas acusações mútuas e atribuições indiscriminadas de culpa a todos e a tudo.
No movimento seguinte do espírito coletivo, quando a consciência é assumida e alargada pela autoconsciência, o que na vida das nações ocorre costumeiramente por intermédio das classes intelectuais, o papel de indivíduos e instituições, até então alienado, é interiorizado como responsabilidade.
Com isso, as torpezas sociais objetificadas e coisificadas em suas versões alienadas adentram, ou melhor, se reencontram na esfera da liberdade.
O povo, ao menos por intermédio dessa classe intelectual, se reconhece como fonte e meio tanto dos desafios que discerne, quanto dos possíveis caminhos que conduzam a sua superação. Toma, por assim dizer, as rédeas que há pouco considerava pertencentes ao “poder”, à “elite”, ou qualquer outra instância social ultimamente escorada e alimentada por si mesmo (o povo).
Na liberdade recém readquirida pela autoconsciência o povo repudia agora os mecanismos (partidos, representantes, leis, instituições e até a própria cultura) por ele mesmo produzidos ativa ou passivamente com fins a sua própria subserviência, não permitindo-se mais, entretanto, a revolta enfurecida contra estes, uma vez que já os reassumiu como um patrimônio seu. Fato que se pode averiguar pela indecisão e incerteza com que a população se rebela contra “algo”, “as injustiças” ou “tudo o que aí está”, sem conseguir organizar-se mental ou politicamente quanto às providências cabíveis.
Entram, então, em jogo as opiniões conciliadoras, instaurando clima reflexivo sério e debate generalizado, ora excitado, ora ponderado, quanto às resoluções inadiáveis e projetos para reformas futuras.
Já não mais se apresentam os quadros infelizes de guerra civil, matança ou prisões arbitrárias que caracterizaram as revoltas passadas, embora indivíduos marcados por vivências estereotipadas acalentem com grande prazer a reminiscência destes episódios, vindo a exigir maior dureza por parte da polícia ou dos rebeldes, convictos de que somente a força pode dobrar a força.
Urge, pois, que a autoconsciência se generalize por intermédio dos grupos esclarecidos e devidamente aparatados com o conhecimento indispensável sobre o funcionamento da vida pública, sobre as bases do direito e da ética, bem como dos fenômenos históricos que contribuam com o alargamento do panorama especulativo.
Uma vez que a autoconsciência já alcançada é dificilmente reconduzida ao estado de alienação, podemos esperar inúmeros e duradouros frutos dos processos sociais recentemente deflagrados.
Em sentido prático e com caráter imediato já se desenrolam progressos concretos e de grande impacto sobre a vida da nação. Já se desfez ou abalou-se a postura hipócrita com que muitas figuras públicas têm mascarado sua indiferença escandalosa diante dos anseios e necessidades do povo a que pertencem e de que não se diferenciam, exceto pelos poderes criminosos que acumularam por meio do dinheiro ou desvirtuação das leis. Já não podem sofismar que o seu comportamento esteja de acordo com eleitores que “calam e consentem”.
Em outras almas mais valorosas do serviço coletivo (sim, as há também) inflamou-se o desejo quase esquecido de honrar os compromissos assumidos perante a pátria, de modo que se movimentam no sentido de aproveitar o constrangimento dos hipócritas e o temor dos francamente maus, a fim de que se agilizem os programas largamente aguardados das reformas política, partidária e outras emendas constitucionais.
Conquanto a autoconsciência seja por si só um progresso inestimável no amadurecimento do povo, como no de um sujeito, ela ainda representa o modo subjetivo de se encarar a realidade, pelo que deve ser sempre enfatizada a necessidade de se a levar a ato.
É preciso que a consciência passe novamente ao estado que lhe é próprio, a objetividade, agora não mais ingênua e alienada, mas transubstanciada em ação livre e autoconsciente de sujeitos.
Esta nova forma de consciência não é mais que a realização, a concretização da autoconsciência, que é um momento de dever-ser. E os indivíduos, o povo como um todo, está suspenso na angústia do puro dever-ser, da pura liberdade característica da tomada de autoconsciência. Tão grandes são a angústia e a incerteza do puro dever-ser, que as personalidades humanas, incapazes de pagar o ônus de sua altura divina, corre o risco de se fragmentar ou recrudescer. Por isso a urgência em se passar quando possível, na vida individual ou coletiva, do puro dever-ser à concretização de projetos que desempenhem este papel conscientizador.
Em termos bem mais simples, um debate indefinido tende mais a confusão do que ao progresso, e em algum momento figuras de liderança têm de exercer o papel de representação ao menos de um conjunto mediano e razoável dos desejos coletivos.
Como o diálogo sério não é habito de nossa sociedade, o diagnóstico das nuanças da vontade coletiva (os grupos de interesse) não está facilmente acessível, produzindo o relativo estupor diante das manifestações. Um estupor que atinge tanto os próprios manifestantes, quanto a sociedade que assiste apreensiva quanto aos rumos do processo transformador.
Saindo do campo da análise e permitindo-nos certa liberdade de divagação e opinião, pensamos ser positivo e imensamente valioso o momento vivido, ainda que ele possa revelar-se muito menos frutífero do que esperamos.


            

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