quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Pascal e Kardec II


Continuamos com nossas considerações sobre Pascal exemplificando o demérito com que ele considerava o mundo e seus assuntos. Só assim podemos entender o “eremita” por detrás dos Pensamentos.
Vejamos o que pensa ele da política:
Costumamos imaginar Platão e Aristóteles usando grandes túnicas de pedantes. Eram pessoas honestas e, como as outras, riam com seus amigos; e, quando se divertiam em fazer as suas Leis e a sua Política, fizeram-nas brincando. Era a parte menos filosófica e manos séria de sua vida. A mais filosófica consistia em viver simples e tranquilamente.
Se escreveram sobre política foi como para pôr em ordem um hospício; e, se fizeram menção de falar dela como de uma grande coisa, é que sabiam que os loucos a quem falavam julgavam ser reis e imperadores; entravam nos seus princípios para moderar a loucura deles na medida do possível.[1]

Não é esta a opinião mais justa possível sobre estes trabalhos? Não é mais veraz do que a dos críticos da filosofia política que atacam com tamanhas carrancas os velhos mestres, imaginando estarem também eles completamente enervados e excitados durante a redação de seus escritos políticos? Filósofo como os da Antiguidade, Pascal enxerga bem a diferença entre a índole dos que educavam e a dos modernos teoristas, que pretendem mudar o mundo. E a pretensão maior disto tudo está exatamente em querer mudar o mundo, corrigi-lo, quando só se corrige o caráter individual. Todas as utopias nascem da ignorância acerca desta simples verdade.
Faltando bases e objetivo para se aplicar ao estudo do mundo, o homem deve voltar suas forças ao estudo de sua alma imortal e das condições de sua salvação. A religião não é eleita por preferência, ou por gosto temático, mas por princípio de razão. A famosa aposta de Pascal está longe de ser o fim dos Pensamentos, mas é certamente o seu clímax. O argumento é por demais extenso e intrincado, e nos exigiria aqui uma exposição integral seguida de comentários, mais do que dobrando o volume já excessivo deste artigo. Basicamente, portanto, são as seguintes as ideais implícitas:
1-    O conhecimento humano é incapaz de decidir entre a existência ou inexistência de Deus; o mesmo vale para a alma; e o mesmo para a situação da alma após a morte. Se nosso conhecimento é incerto e inconclusivo só nos resta apostar. Crentes e ateus, portanto, são essencialmente apostadores, nenhum possuindo mais conhecimento dos fatos do que o outro.
2-    Se nos cabe apostar, é possível ainda calcular as consequências da aposta, deduzindo assim quais são as vantagens de ambos os partidos. Pelas vantagens, mesmo que apenas especulativas, pode-se proferir um juízo racional do que seja a aposta preferível.
3-    A primeira opção, crer em Deus e na imortalidade da alma, direciona nossa vida ao bem, nos desvia dos vícios e torpezas. Tornar-se homem de bem, piedoso e justo, perdendo-se com isto somente os prazeres inconstantes e frugais do corpo, é uma atitude recompensadora mesmo que nenhuma das esperanças de imortalidade se concretize. Apostar na religião é, assim, uma escolha onde não se precisa abrir mão de nada essencial, não acarretando senão em benefício do próprio convertido.
4-    Ademais, a escolha entre uma vida que termina com a morte ou uma que conduz a outra vida, eterna, não oferece qualquer vantagem para os partidários da primeira opção. Qual é a razão de se preferir uma vida à duas, uma limitada e finita à uma outra limitada e finita acompanhada de uma segunda infinita e beatífica? Os que optam pela imortalidade não perdem nada da vida mundana, e ganham uma extra.
5-    Por fim, se abdicamos da imortalidade e vivemos somente para esta vida, certamente nos comprometemos com a outra, se houver. Mas se seguimos uma vida pia e virtuosa, podemos ganhar tudo numa possível vida espiritual no além. Se, por outro lado, não houver vida após a morte, o ateu não ganha com isto mais do que o crente, já que nenhum é recompensado por crer ou descrer de algo.[2]

Pascal chegou desta forma à conclusão final de que, do ponto de vista da lógica dos apostadores, os descrentes passam por tolos. Mas, condescende ele, a maior parte dos descrentes não atingiu este estado por cálculo, e sim por inclinação, e eles próprios o confirmam. É-lhes anormal ou inconveniente crer, e provavelmente estão certos nesta afirmação, pois o homem crê naquilo que está habituado a enxergar, pensar, conversar e fazer. O argumento da aposta provavelmente fala alto à inteligência, mas o descrente permanece afastado da religião pelo coração e pela vontade.
Para isso há ainda outra solução, que nada tem de teórica, mas exige uma dose maior de boa vontade. É preciso habituar-se ao comportamento da fé, de modo a nutrir a alma com as inclinações e o gosto pela religião. Somente a educação dos hábitos pode converter aquele que pela própria natureza se indispõe a algo. Pascal sugere, então, com muita sabedoria, a entrega compulsória a uma vida justa, aos costumes da religião cristã, às leituras e conversações religiosas, através dos quais a alma aos poucos se adapta ao que antes lhe era antinatural.
Após conhecer um pouco do pensador, assombra-nos ainda mais a personalidade do espírito comunicante. Quão difícil seria copiar-lhe o estilo, em caso de fraude. Que maestria seria necessária, a ponto de aumentar a dignidade do charlatão, ao invés de a diminuir. Se uma das médiuns ou o próprio Kardec o plagiou, deveria este ser elevado à condição de filósofo e santo. Contudo, como a análise da autenticidade destes ditados não nos interessa aqui, passemos imediatamente ao seu conteúdo.
Mestre da introspecção, é a Pascal que cabe o aconselhamento sobre como garantir a proximidade e o contato com os bons espíritos, no seguinte ditado presente em O Livro dos Médiuns:
Quando quiserdes receber comunicações dos bons Espíritos, importa vos preparardes, para esse favor, pelo recolhimento, por sadias intenções e pelo desejo de fazer o bem, tendo em vista o progresso geral; porque lembrai-vos que o egoísmo é uma causa de atraso a todo o adiantamento. Lembrai-vos de que se Deus permite a alguns dentre vós receberem a inspiração de certos dos seus filhos que, pela sua conduta, souberam merecer a felicidade de compreenderem a sua bondade infinita, é porque quer, pela vossa solicitação e em vista das vossas boas intenções, vos dar os meios de avançar em seu caminho; assim, pois, médiuns, aproveitai esta faculdade que Deus quer vos conceder. Tendes fé na mansuetude do vosso Mestre; tende a caridade sempre em prática; não deixes jamais de exercer esta sublime virtude, assim como a tolerância. Que sempre vossas ações estejam em harmonia com a vossa consciência, é um meio certo de centuplicar vossa felicidade nessa vida passageira, e de vos preparar uma existência mil vezes mais doce ainda.
Que o médium entre vós que não sinta força para perseverar no ensinamento espírita se abstenha; porque não aproveitando a luz que o ilumina, será menos escusável do que um outro, e deverá expiar a sua cegueira. (Cap. XXXI: Dissertações Espíritas)

         E em quais capítulos de O Evangelho Segundo o Espiritismo Kardec destaca comunicações de Pascal?
Há uma comunicação no capítulo Amar o próximo como a si mesmo, e exatamente sob o subtítulo egoísmo:
Se os homens se amassem com mútuo amor, mais bem praticada seria a caridade; mas, para isso, mister fora vos esforçásseis por largar essa couraça que vos cobre os corações, afim de se tornarem eles mais sensíveis aos sofrimentos alheios. A rigidez mata os bons sentimentos; o Cristo jamais se escusava; não repelia aquele que o buscava, fosse quem fosse: socorria assim a mulher adúltera, como o criminoso; nunca temeu que a sua reputação sofresse por isso. Quando o tomareis por modelo de todas as vossas ações? Se na Terra a caridade reinasse, o mau não imperaria nela; fugiria envergonhado; ocultar-se-ia, visto que em toda a parte se acharia deslocado. O mal então desapareceria, ficai bem certos.
Começai vós por dar o exemplo; sede caridosos para com todos indistintamente; esforçai-vos para não atentar nos que vos olham com desdém e deixai a Deus o encargo de fazer toda a justiça, a Deus que todos os dias separa, no seu reino, o joio do trigo.
O egoísmo é a negação da caridade. Ora, sem a caridade não haverá descanso para a sociedade. Digo mais: não haverá segurança. Com o egoísmo e o orgulho, que andam de mãos dadas, a vida será sempre uma carreira em que vencerá o mais esperto, uma luta de interesses, em que se calcarão aos pés as mais santas afeições, em que nem sequer os sagrados laços da família merecerão respeito. (Cap. XI)

         Este curto ditado revela inúmeros elementos de interesse geral. O que primeiro desperta a atenção é a escolha de Pascal para um tema tão caro ao Cristianismo, o amor ao próximo. Além disso, a forma com que o assunto é abordado não demonstra senão a mais pura intimidade. É com propriedade e segurança que o espírito comunicante transmite a mensagem que, elaborada por outros, não guardaria a firmeza do conhecimento de causa. E o que se depreende da exortação para tomar o Cristo como modelo de todas as ações? A de que o autor, salvo no caso de ser hipócrita, já o faz. E isto já nos diz muita coisa sobre quem é o espírito que encarnou como Pascal.
         Por fim, do ponto de vista filosófico, encontramos uma infinidade de conceitos mesclados. As doutrinas sociais são implicitamente desacreditadas, pois a solução para a “segurança da sociedade” é a reforma do indivíduo. O diagnóstico dos problemas sociais aponta para o orgulho e o egoísmo, não para questões econômicas, políticas ou institucionais. Além disso, uma análise cuidadosa da atitude recomendada revela a indiferença e a malícia, sob a alcunha do desdém, como desafio a ser superado. Isto se justifica, e realmente dota de sabedoria esta reflexão, porque o desânimo e o desgosto são os fatores de impedimento da tomada de consciência transformadora, muito mais do que o combate declarado, que despertando nossa índole combativa, quase sempre nos serve de estímulo. Ao vermos nossos esforços desperdiçados pelo desdém, minam-se nossas forças mais íntimas, não temos por onde reagir ao indiferente ou ao debochado, e amargamos a frustração dos mais caros ideais, revestindo de espessa “couraça” o coração.
         O homem de hoje conhece estes males mais do que qualquer de seus antecessores. O crime hoje não é maior, mas é mais numeroso, seja pelo aumento drástico da população, seja porque os meios de informação nos notificam prontamente de todas as desgraças e abominações de que a nossa mente tem forme. Esgotado pelas notícias dos males infindáveis, perde a esperança, toma por ínfimos e inúteis todos os esforços que constituem a saúde da alma, e perde-a.
         Se ao menos pudesse acumular os bens do espírito ao invés de correr atrás das mesquinharias terrenas... Sobre este assunto prossegue o pensador em seu ditado sobre A verdadeira propriedade, no capítulo XVI, Não se pode servir a Deus e a Mamon:
O homem só possui em plena propriedade aquilo que lhe é dado levar deste mundo. Do que encontra ao chegar e deixa ao partir goza ele enquanto ali permanece. Forçado, porém, que é a abandonar tudo isso, não tem das suas riquezas a posse real, mas, simplesmente, o usufruto. Que é então o que ele possui? Nada do que é de uso do corpo; tudo o que é de uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. Isso o que ele traz e leva consigo, o que ninguém lhe poderá arrebatar, o que lhe será de muito mais utilidade no outro mundo do que neste. Depende dele ser mais rico ao partir do que ao chegar, visto como, do que tiver adquirido em bens, resultará a sua posição futura. Quando alguém vai a um país distante, constitui a sua bagagem de objetos utilizáveis nesse país; não se preocupa com os que ali lhe seriam inúteis. Procedei do mesmo modo com relação a vida futura; aprovisionai-vos de tudo o de que lá vos possais servir.
(...)
Os lugares aqui não se compram: conquistam-se por meio da prática do bem.
(...)

De linguagem simples, esta comunicação guarda nos detalhes uma enorme força. Pela sua clareza, pela forma como apela à inteligência, agrada ao senso de justiça, desvela em poucas palavras o reino de Deus diante de nossos olhos, tem ela um valor didático e evangelizador inestimável para ilustração do gênero humano. Do extenso segundo parágrafo retiramos somente esta frase que o sintetiza. É o espírito de Pascal evocando, como em vida, o despertamento da alma para as questões que mais haviam de interessá-la: a de seu destino, a de sua verdadeira natureza e condição.

O ano de 1863 foi o mais frutífero em ditados de Pascal, embora a maioria deles só viria a despontar na Revista Espírita de 1865. Aí vemos três textos volumosos, dos quais os dois primeiros muito específicos para nossa análise. Já o terceiro artigo, sobre a verdade, é inteiramente filosófico:
A verdade, meu amigo, é uma dessas abstrações para as quais tende o espírito humano incessantemente, sem jamais poder atingi-la. É preciso que ele tenda para ela, é uma das condições do progresso, mas sua natureza imperfeita, e só por isso que é imperfeita, não poderia alcança-la. Seguindo a direção que segue a verdade em sua marcha ascendente, o espírito humano está na via providencial, mas não lhe é dado ver o seu termo.
Compreender-me-ás melhor quando souberes que a verdade é, como o tempo, dividida em duas partes, pelo momento inapreciável que se chama o presente, a saber: o passado e o futuro. Assim também há duas verdades: a verdade relativa e a verdade absoluta. A verdade relativa é o que é; a verdade absoluta é o que deveria ser. Ora, como o que deveria ser sobe por degraus até a perfeição absoluta, que é Deus, segue-se que, para os seres criados e seguindo a rota ascensional do progresso, só há verdades relativas. Mas porque uma verdade relativa não é imutável, não é menos sagrada para o ser criado.
Vossas leis, vossos costumes, vossas instituições são essencialmente perfectíveis e, por isso mesmo, imperfeitas; mas suas imperfeições não vos libertam do respeito que lhes deveis. Não é permitido adiantar-se ao seu tempo e fazer leis fora das leis sociais. A humanidade é um ser coletivo que deve marchar, senão em seu conjunto, ao menos por grupos, para o progresso do futuro.
(...)
Porque o Espiritismo foi revelado entre vós, não creais num cataclismo das instituições sociais; até esse dia ele terá realizado uma obra subterrânea e inconsciente para aqueles que eram seus instrumentos. Hoje que ele aflora ao solo e chega à luz, a marcha do progresso, nem por isso, deve ser de uma lenta regularidade. Desconfiai dos espíritos impacientes, que vos impelem para as vias perigosas do desconhecido.
(...)
Lembrai-vos disto: O Espírito humano se move e se agita sob a influência de três causas: a reflexão, a inspiração e a revelação. A reflexão é a riqueza de vossas lembranças, que agitais voluntariamente. Nela o homem encontra o que lhe é rigorosamente útil para satisfazer as necessidades de uma posição estacionária. A inspiração é a influência dos Espíritos extra-terrenos, que se mistura mais ou menos às vossas próprias reflexões, para vos impelir ao progresso, é a ingerência do melhor na insuficiência da passagem; é uma força nova, que se junta a uma força adquirida, para vos levar mais longe que o presente, é a prova irrecusável de uma causa oculta que vos impele para a frente, e sem a qual ficaríeis estacionários; porque é regra física e moral que o efeito não poderia ser maior que sua causa (...) A revelação é a mais elevada das forças que agitam o espírito humano, porque vem de Deus e só se manifesta por sua vontade expressa; ela é rara, por vezes mesmo inapreciável, algumas vezes evidente para o que a experimenta a ponto de sentir-se involuntariamente tomado de santo respeito. Repito, ela é rara e ordinariamente dada como uma recompensa à fé sincera, ao coração devotado.
(...)
Eis, meu amigo, tudo quanto te posso dizer sobre a verdade. Humilha-te ante o grande Ser, por quem tudo vive e se move na infinidade de mundos, que seu poder rege; pensa que se nele se acha toda a sabedoria, toda a justiça e todo o poder, nele também se acha toda a verdade.

         Esta impactante comunicação traz todos os caracteres da autenticidade. É um trabalho filosófico e religioso a um só tempo; retira da razão toda a sua força de decidir quanto ao que seja a verdade absoluta, mas respeita e valoriza os seus méritos em face das verdades relativas; é trágica, mas impregnada de um perfume de esperança evangélica; reduz as forças humanas, afirmando que a reflexão não proporciona o avanço, mas não deixa de incutir a ideia de responsabilidade na atração e no cultivo da inspiração e da revelação, que apesar de serem, nas suas palavras, a força exterior, só se manifesta na presença do mérito da fé, da pureza da alma e na elevação do pensamento. Trata-se de um texto pascalino nos mínimos detalhes.
         Há outras mensagens ao longo da Revista Espírita, bem como outros textos de Pascal em vida. A quem interessar eles servem maravilhosamente ao propósito de educar a inteligência e enaltecer os sentimentos. Esperamos ter contribuído o suficiente para despertar o interesse por estas leituras.


Bibliografia:

PASCAL, Blaise. Pensamentos. Coleção Os Pensadores; São Paulo: Nova Cultural, 1999.




[1] Blaise PASCAL. Pensamentos. Pg. 118.
[2] Os argumentos da aposta são bem mais ricos e complexos, tomando um capítulo inteiro dos Pensamentos.

Um comentário:

  1. Observações muito boas. Tenho um livro sobre esse tema: "Análise Filosófica do Espirtismo" www.widukind.net

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