sexta-feira, 4 de março de 2011

Carta ao Materialismo

           É a filosofia materialista a causa do consumismo, do hedonismo e de uma atitude existencial pautada na superficialidade? Esta a pergunta que exige resposta, em vista do recente artigo “Materialismo é Consumismo?”, de Daniel Alves da Silva Lopes Diniz, publicado no site www.abiblioteca.webs.com sobre a posição Espírita acerca da filosofia materialista. Escrevi ao site pedindo um direito de resposta, e fui atendido positivamente, confirmando minha impressão inicial de tratar-se de um espaço de debate onde se destacam a civilidade e a probidade.
Antes de qualquer pormenor gostaríamos de afirmar enfaticamente: o materialismo não tem ligação necessária com o consumismo, a falta de ideais e valores, ou com o autoritarismo dogmático; mas esta relação é possível e frequente, aumentando na proporção direta em que o seu proponente possua mais fervor doutrinário e menos sobriedade filosófica. O mesmo se pode dizer da religião em geral; sua relação com a superstição, o obscurantismo e o moralismo pedante não é obrigatória, mas lamentavelmente rotineira.
            Ao apresentarmos uma forma de pensamento é necessário estabelecer o ponto de vista segundo o qual se a julga. É o da teoria pura? Então cabe discutir se há falácias envolvidas, quais são as premissas e axiomas a partir dos quais se desenvolvem os argumentos. É o da manifestação social, na forma de credo ou doutrina? Então nos cabe discutir as consequências desta doutrina para a vida prática. São esferas distintas onde cabem críticas igualmente independentes.
            No artigo publicado por este site, pareceu-me haver uma correta distinção entre a crítica filosófica do Materialismo, apresentada por mim no livro Genealogia do Espírito, e a crítica ao materialismo como movimento social e formador de padrões de comportamento, feita por Suely Schubert em seu livro Mentes interligadas e a Lei de Atração. Mas mesmo tratando-se de recortes, tanto de meu texto quanto daquele referente à autora, é digno de nota o fato de o Materialismo não ser apresentado de forma jocosa. E a má impressão que o segmento possa provocar não me parece justificada diante dos textos na íntegra. A título de esclarecimento, portanto, confirmo o tom condenatório dos trechos destacados, sem que com isso admita, no todo das obras, qualquer discriminação ou condenação do Materialismo.
            Prefiro, de toda maneira, falar somente sobre o escrito do qual sou autor e pelo qual sou responsável, pois somente em relação a ele posso proferir um juízo definitivo. Em Genealogia do Espírito não se pode encontrar uma passagem que discrimine o Materialismo, ou qualquer outra doutrina. Isso seria contrário aos fundamentos basilares do Espiritismo, que pregam o respeito a todas as crenças sinceras.
            Isso não significa que eu me abstenha da crítica. Eu as tenho, aliás, em quantidade, como também as tenho para com diversas religiões, ideologias políticas e idéias independentes, o que inclui o próprio Espiritismo; e estou convencido de que a crítica é o nosso instrumento mais eficaz de aproximação, desde que tenha sempre um cunho construtivo. Igualmente crítico é o referido artigo “Materialismo é consumismo?”, mas a crítica severa que ele impõe aos textos analisados e ao Espiritismo enquanto tal é, não obstante, respeitosa e civilizada. O que não considero apropriado em nenhuma circunstância é o desprezo pelas e a condenação das idéias alheias, e isso jamais fiz conscientemente.
            Minhas ressalvas filosóficas quanto ao Materialismo se resumem no fato de que ele se cristalizou como doutrina dogmática, especialmente na associação com o Cientificismo e o Ceticismo dogmáticos. Este é um acontecimento ideológico que em nada depõe contra o Materialismo crítico de pensadores conscientes e moderados como Herbert Spencer e Carl Sagan. O Socialismo igualmente desenvolveu-se como ideologia dogmática em sua forma marxista, pregando uma distinção de classes sociais, uma boa e outra maléfica, à semelhança de um racismo transferido para a esfera social. Isto não significa, também, que devamos condenar o Socialismo como filosofia, conforme foi proposto com muita correção e tolerância pelos filósofos de Frankfurt, ou pelos espiritualistas franceses da era pré-Marx. O problema todo está em se pregar aquilo que não se faz. O Materialismo é uma doutrina, como o Espiritismo, o Socialismo, o Budismo, o Catolicismo e até mesmo o Ceticismo, enquanto este último tem uma forma normativa e persuasiva; e toda doutrina é construída pela razão humana, limitada pelas nossas carências e condicionamentos. Nenhuma doutrina teórica pode afirmar-se na posse da verdade, em detrimento de outras elaborações que a interpretam de diferente maneira. Todas representam esforços humanos na busca pela verdade; são, em termos de filosofia da ciência, especulação.
            Qual é a origem do Materialismo? É a mente humana elaborando uma concepção de mundo a partir de sua experiência, inclinação pessoal e vontade. Qual é a origem do Espiritismo? Exatamente a mesma; só mudam a experiência, a inclinação pessoal e a vontade, que direcionadas para outras vivências e interesses justificam outra doutrina. Qual é então o problema com o Materialismo? É o fato de ele comumente negar esta origem na mente humana, como proposta interpretativa da realidade, e afirmar-se, ao contrário, na posse de prerrogativas especiais, geralmente baseadas no respaldo da ciência. A ciência, contudo, não é materialista, senão neutra e imparcial, independente da doutrina filosófica que queira figurar o mundo como puramente material ou povoado de espíritos. Ao tentarem se apropriar do método científico como se fosse este um produto da filosofia materialista, os materialistas cometem um crime contra a ciência e contra sua própria doutrina, que perde a dignidade filosófica de que goza por direito como uma proposta racional de interpretação do mundo.
            Assim pervertida, a doutrina materialista se assemelha à instituição da Igreja, que ao monopolizar a interpretação da revelação bíblica, o único acesso a verdade reconhecido na Era Medieval, condenava à marginalidade todas as demais idéias. Mas não é preciso que se proceda desta forma. As religiões podem respeitar-se no campo da interpretação das Escrituras, reconhecendo-se limitadas ao campo da proposição de teorias religiosas. O Materialismo igualmente pode conviver com outras filosofias que busquem interpretar os dados da ciência, ao invés de condicioná-los ao seu esquema doutrinário. A este Materialismo que reconheça a possibilidade de uma doutrina filosófica alternativa, mesmo que a considere pior do que ele mesmo, só poderíamos render louvores. Ao Materialismo que execra e espezinha a experiência pessoal de fé e sentido das demais doutrinas, que acredita-se o intermediador oficial entre ciência e filosofia, tal qual a Igreja atribuía-se a exclusividade da interpretação bíblica e da intermediação entre Céus e Terra, verdade e teoria, contra este têm de se revoltar todas as pessoas intelectualmente honestas.  
            O que fazer quando as sumidades e as figuras mais respeitáveis do Materialismo atual, como Richard Dawkins, adotam exatamente a postura fundamentalista e dogmática de condenar “com respaldo da ciência” outras filosofias que não as suas? E o que pensar quando os partidários do Materialismo aderem em massa a este tipo de ditadura ideológica?
            Estamos no século XXI! Os embates entre filosofia crítica e ideologia já foram travados. A ciência já desceu de seu pedestal positivista para o papel de formuladora falível de hipóteses a serem confrontadas com a experiência (Popper). Não é mais cabível o materialismo ideológico, o único que me permito criticar. Nem se justificam mais as idéias retrógadas de que a arqueologia desmente a Bíblia (relato essencialmente simbólico e desde sempre desprovido de função científica), de que o darwinismo comprova a inexistência de Deus ou de forças vitais que possam atuar em paralelo com o processo de seleção natural, de que o Big Bang foi provocado pelo acaso...
As teorias científicas versam sobre nossa experiência sobre o mundo, não sobre questões filosóficas de por que ou para que ele funciona desta ou daquela forma. As doutrinas filosóficas, por outro lado, têm o direito e o dever de elaborar respostas especulativas para aquelas e outras questões que extrapolam as possibilidades de observação. E neste âmbito todas as propostas devem ser respeitadas e criticadas com base em sua lógica interna e adequação à experiência. Jamais pode uma doutrina apropriar-se da ciência, ou da revelação religiosa, ou de qualquer outra esfera de conhecimento, para sustentar uma autoridade inquestionável em detrimento de outras. Mas todas as doutrinas, infelizmente, o fazem, pois a manutenção da postura crítica é um esforço constante e desgastante demais para a maioria dos partidários de qualquer uma delas. Devemos temer o olvido e o relaxamento crítico por parte de qualquer doutrina, mas especialmente quando ela está culturalmente associada a instituições de poder político ou um programa cultural reconhecido como foro privilegiado de julgamento da verdade. Ocorre de o Materialismo ser a doutrina especulativa mais próxima, na mentalidade geral, da ciência, que é o nosso foro privilegiado de julgamento na Era Moderna. Somente por isso gera-me ele mais desconforto do que outras doutrinas especulativas desprovidas de prerrogativas especiais.
            Minha opinião sobre os materialistas? São representantes de uma doutrina racional e sóbria, dedicados ao progresso do saber, mas constantemente ameaçados pela tentação dogmática; e isto é reforçado pela crença geral de nossos tempos de que a ciência é materialista, assim como já foi dominante a crença de que o Cristianismo fosse católico. O materialista não é per si desprovido de valores morais, mas está mais sujeito ao desespero existencial, ao niilismo e ao cinismo do que pessoas religiosas, já que crença numa objetividade moral imprime nos últimos uma forte sensação de responsabilidade diante de um juiz absoluto. Contra todos estes revezes deve e pode conscientizar-se e preservar-se.
            Acredito sinceramente ser possível defender a convicção espírita e empreender crítica ao materialismo, na medida em que temos o direito de expor de modo argumentativo a nossa posição, nossos agrados e desagrados por estas ou aquelas idéias. Esperamos receber críticas semelhantes dos materialistas, uma vez que, na condição de buscadores da verdade, tenham interesse em nos esclarecer quanto ao seu ponto de vista, raciocínios e vivências. A defesa de nossos pontos de vista e a avaliação crítica das perspectivas alheias não implica, contudo, que não possamos nos valorizar mutuamente, aproveitando os esforços coletivos rumo ao progresso do saber.

6 comentários:

  1. Amigo.
    Tudo bem?
    Gostaria da sua autorização para publicar seus artigos em nossa revista.
    Vc nos autoriza?
    No aguardo.
    Abraço!

    Maria Carolina Gurgacz

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  2. Nosso e-mail é
    filosofiaespirita@gmail.com

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  3. Muito bom o artigo. Muito sensato.

    É interessante que mesmo Kardec parece incentivar o preconceito contra os materialistas. Porém atualmente não é mais possível manter essa postura.

    Concordo totalmente também com a crítica aos que acham que a ciência é materialista, que se multiplica com o proselitismo de Dawkins.

    É triste não só ver ateus (e não qualquer ignorante, mas universitários) afirmando que a ciência é atéia, e hoje em dia ainda existe uma fé muito grande em que o LHC ira comprovar todos os seus dogmas. Como se fosse mágica,como se fosse mesmo possível comprovar empiricamente e sem nenhum embasamento metafísico suas afirmações ontológicas fortes e necessariamente metafísicas.

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  4. Curioso: Kardec postula que, fora deus, todo o resto é matéria. Isso é quase tão materialista quanto os estóicos, que afirmam que até deus é matéria. Infelizmente, existe preconceito religioso quanto ao materialismo, como se não fossem capazes de produzir material ético favorável para uma vida feliz. O que dizer de Comte-Sponville, de Onfray, e de tantos outros atuais, sem falar nos antigos, numa genealogia que remonta desde Aristipo?

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  5. Está provado pela física quântica, que a "matéria" é um fenômeno temporário percebido pelos sentidos ordinários, visto que 99 % do átomo é constituído do vazio, não existe de fato contato físico em nada, pois o átomo é a camada externa do átomo é essencialmente negativa, e cargas de mesmo sentido se repelem.

    As formas materiais que percebemos com os nossos sentidos, são regidas pelos campos morfo-genéticos.

    A física quântica também verifica que no átomo temos o núcleo formado por particulas matériais, já os eletrons ao redor do núcleo giram e oscilam em "órbitas" ( que na realidade são possibilidades de se encontrar o életron, ou espaços orbitais ) e quase não tem matéria ( massa ínfima ), e entre estas órbitas "existe" um vazio, chamado de "zona proibida" pois para que ocorra uma mudança de orbita o elétron deverá ganhar ou perder energia, esta energia é medida de forma inteira, ou seja 1, 2, 3... n ( 1 quantum ou n quanta ), não há frações de energia para este salto quântico ( não existe 2,433... ), então UM életron na mudança ele some da órbita em que se encontra e instantaneamente UM aparece em outra órbita, ou seja não passa pela "zona proibida".

    O importante é entender esta concepção última, que o que existe de fato é energia, em forma de ondas, que quando colidem regidas pelos campos morfo-genéticos, nos dão a sençação de matéria organizada.

    Namastê
    Paulo Roberto

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