terça-feira, 31 de maio de 2011

Diogo Feijó, o pai espiritual do Brasil


        Quase um século depois dos EUA, o Brasil também veria surgir em seu solo uma figura de intenso magnetismo pessoal, distinta pela excelência de suas virtudes e pelo brilho de sua inteligência.
Como no caso de Benjamin Franklin e dos pais da pátria da América do Norte, Diogo Feijó educou-se integralmente no seu país, mais especificamente no interior de São Paulo. Considerando-se que a capital deste estado provavelmente não estava entre as três cidades mais importantes do Brasil, pode-se inferir que os estudos no interior do estado se realizaram em ambiente rural de acentuadas dificuldades. Não obstante, o padre obteve ilustração invulgar através da dedicação pessoal e do espírito autodidata, pré-requisito que por muito tempo e lamentavelmente foi obrigatório para todos os letrados do Brasil.
         Feijó foi, com todas as limitações de sua formação, uma luz na educação dos jovens. Primeiro a introduzir os estudos de filosofia com seriedade no país, tendo precária, mas corajosamente confrontado o currículo básico da Igreja católica com lições sobre Kant, o iluminismo e os ideais libertários, sua influência e valor cultural vão muito além do apagado papel que os livros de história geralmente lhe atribuem.
         Os Cadernos de Filosofia, que presentemente analisamos, contêm uma doutrina moral completa aos moldes da filosofia iluminista. Se não é original, ao menos contribuiu para a inserir em língua portuguesa e território nacional princípios distintos dos que se pregava nos seminários de então, e em todas as páginas o vigor e a desenvoltura com que a inteligência de Feijó apresentam o tema deixam claro a excelência de sua própria meditação.
         Em nossa economia moral íntima, conforme as leituras do padre-regente, duas propensões naturais teriam o papel de motores do automatismo do comportamento humano. Tais propensões seriam o amor de si, o que hoje quase sempre qualificamos como egoísmo, e a estima de si, um instinto nobre e solidário, correspondendo à decência natural, não adquirida por educação ou esforço, que todo o indivíduo tem em si pelo simples fato de ser filho de Deus.
O amor de si ou amor próprio é a fonte básica de todos os males, na medida em que pelo seu mau uso ou exagero é que o homem ultrapassa os interesses de seus semelhantes, e contraria a vontade de Deus. De essência positiva, porque natural, o amor de si tem na sua forma espontânea e limitada a nobre função de preservar o animal biológico que por assim dizer serve de hospedeiro para a alma. Garantindo a reprodução da espécie, a saúde do corpo ou o direito a propriedade adquirida, o amor de si cumpre sua elevada finalidade; o que deixa de ocorrer somente quando se extrapola a medida do necessário, provocando excesso danoso ao corpo (p.ex. sexual, alimentar, etc) ou invadindo o espaço em que também deve vigorar o amor próprio de outrem, prejudicando este último na obtenção de seus fins legítimos.
A estima de si, em contrapartida, é a propensão natural da personalidade humana ao bem. Enquanto a primeira busca o prazer, medida da satisfação da vontade na preservação do eu, esta segunda propensão é o instinto inato do dever, do respeito que deve o indivíduo a seus semelhantes, e mesmo da necessidade de por eles devotar-se ou abnegar-se. É de certa forma o instinto gregário ressaltado por Aristóteles.
         Essas propensões automáticas naturalmente não garantiriam a vida ética do sujeito, não fosse o concurso da razão esclarecendo o indivíduo sobre o funcionamento deste automatismo da vontade, e oferecendo-lhe a opção de direcionar sua volição não mais conforme as propensões, senão conforme a regra da conduta estabelecida por ela (a razão). A volição inconsciente das propensões passa assim à volição racional e, portanto, livre.
Mas aqui há uma diferença fundamental para com a agenda iluminista que ele reproduz quase na íntegra. Aquém da função da inteligência em dar a norma de comportamento correta para a vontade, Feijó reforça a preponderância da piedade sobre a norma, observando que a consciência pode inclusive vacilar diante de apuros e dilemas teóricos ou éticos. Nisto, contudo, pode auxiliá-la a revelação, que como lei objetivada que corresponde à lei subjetiva escrita na consciência. A revelação é a voz de Deus prometendo através dos profetas e do Filho a perfeita justiça. O que a consciência sugere, mas não pode garantir, a revelação promete com firmeza: “Sê virtuoso e serás feliz!”[1] É o mote fundamental de toda a religião.
Certificado pela revelação, o homem tem a força necessária para enfrentar todas as privações que as grandes tarefas podem exigir. Se uma vida de agrura e sacrifício se fazem necessária ao cumprimento do dever, especialmente se este inclui o bem coletivo, a promessa da felicidade eterna é o único lenitivo com o qual pode consolar-se.
Pois bem; o que garantiria então a correção do comportamento, se apesar do que apontavam razão e revelação a vontade permanecia em posse de todo o poder deliberativo? Não poderia o homem enxergar o certo e desejar, ainda e contudo, o erro? Não, responde o pensador brasileiro, pois tanto a razão quanto o sentimento de piedade aplicariam sobre o sentimentos do homem o aguilhão do arrependimento e da consternação sempre que a vontade teimar em ignorar os avisos da mente e do coração. A regra moral que Deus permite aos homens desvendar por estudo e experiência não apenas sugere o bem, mas pune o mal. É preciso, portanto, estudar quais são as condições em que nossa consciência exerce sobre nosso organismo moral essa imputação.
As exigências morais que o padre iluminista impunha a si mesmo, e aconselhava aos demais, eram das mais rigorosas. Praticamente qualquer desvio da intenção, do pensamento ou do desejo poderia ser imputado moralmente ao homem. Omissão, conivência e negligência do dever seriam tão imputáveis quanto a própria execução do crime, embora em grau menor. Jamais uma participação, mesmo que inconsciente, numa falha moral pode ser ignorada do juízo da consciência, quanto menos do divino. O indivíduo só estaria isento da participação no mal se ele além de não o desejar tiver feito todos os esforços a sua disposição para o evitar e repudiar, inspirando nos demais o mesmo zelo. Observemos nas próprias palavras do magnífico regente a tábua das imputações em todos os seus detalhes:

... quando o homem faz quanto pode para corrigir seus hábitos e moderar suas paixões; quando o arrependimento do pecado retrata o efeito desses hábitos e paixões, eu não sei como se lhe pode imputar semelhantes ações ou omissões.
As ações praticadas com diminuição de liberdade serão mais ou menos imputáveis, segundo a força do sentimento moral e motivos mais ou menos obrigantes oferecidos pela razão, segundo temperamento e educação...
Como muitos podem ser autores de uma só ação deve-se examinar-lhe o grau de influência que cada um teve nela, para se-lhe imputar.
Pode o autor ser causa única ou cooperadora; cooperar igualmente ou com desigualdade; ser causa principal ou subalterna; ser causa próxima ou remota; imediata ou mediata.
Pode influir no entendimento suscitando a ideia da ação, por conselho, exemplo ou por qualquer sinal.  Pode influir na vontade mandando, ameaçando, rogando facilitando ou aprovando.
(E por último o motivo que todos reconhecem ser o predominante) Pode influir na ação deixando de fazer o que devia para embaraçá-la.[2]

Em relação aos deveres para consigo mesmo, que se dividem em deveres para com o corpo, a vontade e o espírito, todos compartilham a recomendação da disciplina e educação dos hábitos. O esforço de repetição do comportamento virtuoso, saudável ou feliz, garantiriam, para Feijó a adequação do corpo, da vontade e do espírito às tarefas elevadas, descondicionando o homem de seus padrões atávicos e instintos incultos.
Por fim o dever da beneficência extrapola completamente o âmbito da ética restritiva e exige uma noção positiva. A beneficência é a obrigação de fazer ao próximo o que gostaríamos que nos fizessem, o que não se confunde com as limitações do nosso comportamento visando não o prejudicar. O dever da beneficência, mais que isso, exige o sacrifício, a caridade e o devotamento do indivíduo aos demais, sem outro interesse que não seja o do bem alheio e coletivo. É de acordo com esse dever que se executam as ações heroicas e santificadas que marcam uma comunidade no curso da história, e é o cumprimento dele que mais ressalta um indivíduo aos olhos de Deus.
Saindo do plano teórico da filosofia moral para o aspecto mais prático da edificação e da confissão de fé, nosso patrono espiritual revela ainda maior familiaridade e grandeza no trato dos assuntos pertinentes à reforma interior. Reproduzimos a seguir pequenos trechos do texto Retrato do homem de honra e verdadeiro sábio:
O sábio e homem honrado põe a sua felicidade em temer a Deus, e em lhe ser fiel; olha o pecado como o maior dos males e quisera antes perder tudo que cometê-lo.
Fala sempre com o maior respeito de Deus, de religião, das coisas santas, e dos maiores: nem murmura deles, nem o consente fazer, se pode. Não se envergonha de ser devoto, nem de o parecer; mas evita exteriores, que faria ridicularizar a piedade.
Nenhum interesse é capaz de o fazer mentir e faltar à verdade; mas não jura por ela: e sabe guardar segredo a tempo, e sem mentir jamais...
É dócil e afável até com os pequenos: nunca mostra desigualdade de humor e de gênio, que o faça odioso e insuportável; tem sempre um rosto sereno, e esta amável alegria, companheira da inocência e da bondade do coração; naturalmente é civil e político com todos e se contrafaz para não molestar alguém...
Seu gosto é fazer bem, antes que lho peçam, e quando não pode, se desculpa em termos tão sinceros e corteses, que obriga e encanta; e jamais se jacta do benefício que faz; nem se esquece do que lhe fazem... Não tem inveja da fortuna dos outros... Sabe se acomodar-se a todos os espíritos e a todos os gênios, quando a decência e a sabedoria o permitem; e se porta de modo que a ninguém desagrada...[3]

         O texto completo é longo, mas todo ele marcado pela mesma dignidade. Seria conveniente que todo o gênero humano o conhecesse mais de perto. Para resumir, no entanto, observamos que a ninguém é dado falar e escrever com um força que não possui, e se nosso sábio e piedoso autor nos encanta com o retrato do modelo de homem moral, é porque pôde retirar de si esta viva imagem, que para nós quase como utopia se apresenta. Todos os que que se habituaram a ler discursos morais e religiosos sabem o quão detestavelmente vazios e evidentemente hipócritas são os termos daqueles que pretendem emular uma virtude que não possuem; e tentando imitá-la, deturpam-na.
         Em toda a sua vida Feijó nos apresentou este mesmo retrato da retidão. Renunciando ao poder que muitos cobiçavam e que ele aceitou como obrigação do dever, deu a prova de que em nenhuma circunstância estava à venda a sua consciência. A dedicação com que exerceu o cargo de regente do Império, motivado exclusivamente por amor à pátria e ao povo, deveria envergonhar para sempre todos os homens públicos que sequer pensaram em os desonrar. Este que foi provavelmente o nome mais ilustre dentre os que nos governaram, não obteve o cargo nem por direito, como os imperadores, nem pelo voto, como os presidentes, mas, como para destacar-lhe a distinção, foi escolhido em situação de urgência, quando a nação necessitava de uma figura dotada de inquestionável caráter e destacada competência. A quem, em nosso atual cenário público, poderíamos apontar?
         Ao lado do cortejo inumerável de infelizes réprobos da pátria, elevados pelo seu poder ou pela irresponsabilidade das multidões ao papel de líderes, restará sempre o nome de Feijó como símbolo do orgulho coletivo. Nele podem os brasileiros, como em muito poucos outros indivíduos de nossa memória, buscar a inspiração para o cumprimento dos destinos do país.
        

Bibliografia:
FEIJÓ, Diogo A. Cadernos de Filosofia. Ed. Miguel Reale. São Paulo: Grijalbo, 1967.


[1] Diogo A. FEIJÓ. Cadernos de Filosofia. Pg. 127.
[2] Ibid. Pg. 133.
[3] Ibid. Pg. 165-167.

Benjamin Franklin, o pai espiritual da América


Quando as nações se organizam e assumem um papel efetivo na história, é invariavelmente por intermédio de certos gênios do campo político, cultural, econômico, religioso ou militar. A passagem de uma população de seu estado informe e caótico para a ordem de estado, com certos valores e leis instituidos, requer sempre, o que é comprovado pelo estudo histórico, o recurso do carisma pessoal e do sacrifício de alguns no instante crucial de fundação da pátria.
A vida de Benjamin Franklin é uma daquelas que mais servem de repositório inesgotável de aprendizado e admiração por parte daqueles que a analisam, reforçando a tese de que não é pelo acaso nem a qualquer um dada a glória de orientar um povo em sua marcha pelo deserto, rumo ao descanço na terra prometida.
De origem extremamente pobre, tendo de instruir-se por esforço próprio, trabalhando desde o início da adolescência, como era comum aos jovens da época, e saindo ainda muito jovem pelo mundo em busca de oportunidades de estudo e carreira, Benjamin expressava sem ressalvas os sinais do gênio universal que haveria de se tornar.
Escritor de panfletos, artigos jornalísticos e satíricos; pioneiro nas pesquisas sobre a eletricidade, figura de liderança em qualquer associação que gozou da graça de sua presença, patrono da insurreição contra a Grã-Bretanha em favor da independência, organizador e inspirador mor da constituição, filantropo destacado, moralista e delegado científico e diplomático dos EUA na Europa, o pai da pátria americana parece ter exercido não apenas todos os encargos de prestígio social e intelectual, como os fez sempre com uma força incomparável, o que garantiu os resultados duradouros de todas as suas diversas iniciativas.
A sociedade de ciências médicas de Paris teria pronunciado sobre ele: “Se um americano, um filósofo de terras selvagens, solucionou alguns dos maiores desafios da ciência europeia, a razão há de ser mesmo algo universal.”[1] Veja-se que até os franceses o elogiavam.
Ao invés de citar suas evidentes contribuições políticas, gostaríamos de destacar uma obra filantrópica que, embora com muito menos projeção, demonstra ainda melhor o caráter caritativo que logo lhe tornou respeitado em todo o país. Falamos da primeira biblioteca pública estabelecida nas Américas.
A organização da biblioteca da Filadélfia, por volta dos anos 1730, foi um dos eventos mais relevantes para o desenvolvimento da cultura americana, e uma prova do vigor dos ideais puritanos e iluministas no Novo Mundo. Sem a iniciativa de Franklin e outros amigos por ele selecionados, que não apenas organizaram, como inclusive doaram de seu acervo pessoal a maioria dos livros, a iniciativa jamais teria se concretizado. O espírito dos Estados Unidos dava aí uma mostra da iniciativa e da capacidade de associação comunitária que logo lhe garantiria o sucesso econômico e político que conhecemos. Em nenhum momento ocorreu aos idealizadores da biblioteca solicitar apoio de entidades governamentais ou instituições. Ao invés disto organizaram e financiaram todo o empreendimento de uma entidade pública, somente com o trabalho dos indivíduos, nem sempre abstados.
Naquela época, quase toda a ilustração política em língua inglesa estava limitada aos Dois Tratados sobre o Governo, de John Locke, e mesmo este título era desconhecido da maioria dos americanos. Após a organização da biblioteca por Franklin, este tornou-se rapidamente um dos livros mais requisitados, e foi tão impactante a sua repercussão que nove dos delegados responsáveis pela assinatura da Declaração de Independência afirmam só ter lido a versão doada por Franklin.[2] Este fato é mais que suficiente para alertar-nos para as dificuldades gigantescas de se obter livros nas Américas do século XVIII. Os desafios enfrentados pelos latino-americanos devem ter sido bem mais graves.
A biblioteca da Filadélfia acabou tornando-se mais do que um repositório de livros; Franklin observou logo que parte do atraso científico da América se devia aos altíssimos preços da aparelhagem científica, cujos itens eram sem exceção importados. Para que o pesquisador americano não permanecesse impedido de prosseguir com seus estudos, a sociedade de amigos fundadores da biblioteca dispôs também uma linha de fundos para a compra deste equipamento.
Já é bem conhecido, por outro lado, o papel de Franklin como cientista. Sua célebre experiência com a pipa foi apenas o final de uma longa série de estudos com diversos materiais, o que só se pôde efetivar com aparelhos inventados e construídos por ele. A guerra entre as correntes empirista e racionalista acerca da eletricidade foi permanentemente desequilibrada em favor dos primeiros, tudo graças ao impacto do trabalho de Franklin. Por quase dois séculos (até as revoluções de Einstein), a filosofia foi expulsa do investigação científica; fato que, conquanto doa aos amantes da filosofia, foi extremamente benéfico naquele momento histórico.
Mais interessante do que seus inúmeros trabalhos caritativos, empresariais, científicos e comunitários são suas meditações éticas e religiosas. O cronograma diário do pai da pátria era dominado por oito horas de trabalho “obrigatórias”, onde naturalmente a obrigação era voluntária, pois ele era dono do próprio negócio, duas horas de intervalo para almoço, que incluía a leitura de jornais, um momento após o trabalho para a “questão do entardecer”, momento em que ele se perguntava sempre a mesma coisa: “Que bem fiz eu no dia de hoje?”. Em sua busca por uma disciplina de vida quase monástica ele estabeleceu também os horários inalteráveis para o sono, as refeições, a música e eventuais conversações.
Por volta desta mesma época, o sábio criou para si uma tábua de virtudes; mandamentos que ele se comprometia a seguir no melhor de suas forças, juízo e possibilidades. Começando pelas que ele considerava mais fáceis de cumprir (difícil dizer se para si ou para todo o gênero humano) e terminando nas virtudes heroicas da castidade e da humildade, que ele considerava só serem apresentadas pelos santos. Esta última teria uma única regra: “imitar as vidas de Jesus e Sócrates”. Regra que, no entanto, o pai da América considerava virtualmente impossível de se cumprir à risca.
Entre as virtudes primárias ele elenca o comedimento, ou moderação, e o silêncio, ambas essencialmente formas de autocontrole e disciplina. Mas através destas simples virtudes o homem pode não apenas educar-se para outras maiores como evitar inúmeros males para si e para os que lhe estão próximos.
Exatamente como o outro herói pátrio que analisaremos a seguir, Antônio Diogo Feijó, Benjamin relaciona intimamente a virtude ao dever cívico. A moralidade não é, para estes gigantes, uma regra de conduta ou amadurecimento pessoais, senão os meios para o bem geral. Ambos moralistas e políticos, combinação que nos soa tão estranha atualmente, acreditavam ser o papel dos homens reformarem-se o mais rápida e completamente possível, para que o destino longamente ansiado e preparado pela Providência possa se concretizar.
Daí o fato de ser para Franklin a humildade a virtude maior. Somente aqueles capazes de devotamento e abnegação podem empreender grandes feitos públicos. Se um indivíduo desonra sua nação, nos mais pequenos detalhes, se tem seus interesses ou mesmo ideias em primeiro plano, jamais poderá levar consigo a liderança moral da sociedade, estando suas obras fadadas a expirar na memória coletiva. Os grandes feitos só se eternizam quando escorados pela autoridade moral que a todas as almas cativa, em todas as épocas. Somente estes podem realmente alimentar a chama do ideal e do sacrifício coletivo com que se estabelece o progresso. Sem isto todos os líderes são agitadores e hipócritas, capazes de excitar e manobrar por um momento o ânimo das massas, mas desprovidos de força para arrastar consigo os corações ao martírio.


[1] Carla MULFORD. Cambridge Companion to Benjamin Franklin. Pg. 79.
[2]  Carla MULFORD. Cambridge Companion to Benjamin Franklin. Pg. 13.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O vazio de um mundo sem sonhos.


Como ser de liberdade, condenado a escolher seus próprios rumos e diretrizes, o homem não tem outra missão senão aquela que impõe momentaneamente sobre si mesmo.
Enquanto as provas são inerentes à vida, derivando diretamente dos desafios que ela a todos impõe, e ao passo que a expiação dos males está a cargo do automatismo da lei moral quanto física de causa e efeito, a tarefa missionária diferencia-se por sua dependência total da adesão voluntária.
Num sentido menos espiritual, como o da filosofia existencialista, o homem pode propor-se qualquer espécie de projeto de vida, sendo sua realização pessoal um subproduto da aplicação desse projeto. A desgraça, para a popular filosofia existencialista do século XX, estaria em não se possuir um projeto, situação na qual o homem, não tendo referenciais externos de julgamento, perderia a capacidade de valorizar e julgar os fatos de sua existência.
O que podemos aproveitar dessa filosofia, mesmo quando acreditamos em valores essenciais e conhecíveis, é a realidade psicológica dessa afirmação, uma vez que a grande descoberta do existencialismo está em saber que a posição do homem em relação ao mundo está na razão direta da forma como ele escolhe reagir e se relacionar com ele.
Ora, isso é perfeitamente admissível ao homem religioso, particularmente ciente da esterilidade da crença na ausência do compromisso. Ideias e valores têm a sua força na medida em que os assumimos e com a energia com que os assumimos. De outro modo não há ressonância entre a crença e a vida prática, entre o que aceitamos com a opinião e o que acolhemos com a vontade e o sentimento.
Nossa vida tem o sentido que produzimos, e tal é, em consequência, a importância dos projetos. É pelos nossos projetos que organizamos todo o nosso ser _ intelectual, volitivo e sentimental _ para o enfrentamento dos desafios do mundo. Sem um projeto, ou vários, nossa existência é meramente automática; a inteligência se limita a entender, sem criar; a vontade se restringe ao desejo, sem inflamar-se diante dos grandes desafios ou renovar-se para a persistência nos trabalhos árduos; e o sentimento, pobre e lastimável, atrofia-se em órgão destinado ao entretenimento, desperto somente por estímulo exterior e casual, perdendo toda a sua função dignificadora e embelezadora que, aplicada a um propósito qualquer, torna-o um sonho, um ideal.
O combustível do projeto idealizado para o futuro não demanda refinamento para dar partida no motor da vontade humana. A mais simples meta tem poder suficiente para organizar e focar o turbilhão dos desejos dissonantes em um objetivo de vida, ainda que temporário; o pensamento reage deixando de vagar em perturbação, e fixa-se alegremente nos planos e análises das condições de execução; o homem ontem perdido na sucessão das ideias e interesses desencontrados, mero receptor de notícia, estímulo e influencia, passa instantaneamente a produtor destas e de outras relações.
Imagine-se um homem que, assolado pelo desânimo da falta de perspectivas, tem toda a sua ação limitada à manutenção do corpo e à cata de distração que lhe mantenha o espírito longe do desgosto de pensar em seu estado. Ponha-se uma única meta de difícil realização a esse indivíduo e o veremos transformar-se como por encanto. Logo o cidadão é todo planos, fala de seus objetivos com empolgação, esquece-se do prazer imediato e poupa, ou estuda, ou se exercita em algum esporte ou arte. Visto de fora esse homem recebe com frequência críticas maliciosas por voltar suas forças para fins tão mundanos como a aquisição de um carro, o progresso na ginástica ou a conclusão de um pequeno curso, mas se suspeitassem dos benefícios que o mesmo colhe, se tivessem em mente que há pouco este alegre e dedicado indivíduo estava mergulhado em marasmo e talvez a beira da depressão, outra seria decerto sua atitude.
Qualquer cometimento sério é meritório, diríamos mesmo que é sagrado, pelos resultados que traz ao indivíduo que se lança ao trabalho. O milagre de resgatar uma vida do vazio e da paralisia, tornando-a útil à coletividade e saudável para o seu dono, é também um milagre da fé, visto que a fé é, entre outras, a forma básica da confiança e do comprometimento existencial consigo mesmo e com o mundo. Convença-se um homem de que o mundo está contra ele, de que todos os seus esforços não serão recompensados, de que ele não possui valor ou capacidade, e ele não alimentará sonho algum. Desperte-se nele, ao contrário, uma autoconfiança inabalável, fazendo desta criatura humilde o herdeiro da divindade, coloque-se diante de seu olhar um universo benigno que o ampara em todos os seus projetos mais nobres, e logo ele estará com a mente fervilhando das mais elevadas concepções.
Quando a fé míngua, o sonho esmorece com ela, e quando o sonho, que é o compromisso com a transformação, deixa de orientar o projeto de vida de um indivíduo, este perde a parte melhor da liberdade, a sua força criativa e expansiva. Resta somente uma liberdade ética, de escolher entre o certo e o errado, mas não há mais liberdade para crescer, para expandir-se.
         A conduta moral correta é por si só meritória, mas ela é improvável se não estiver constantemente impulsionada pelo espírito de sacrifício e dedicação extremos que somente a fé num projeto nobre proporciona. Por isso é tão importante ter-se um referencial; ele não constitui uma virtude por si mesmo, mas cria em nós um vigor, uma disposição psicológica e existencial para superar barreiras internas que antes pareciam maiores.
         É de pouca importância o resultado final de um programa grandioso. Se o sonho se realiza ou não, é questão secundária. O valor de sonhar está em fazer crescer diante dos olhos da imaginação o próprio valor, e com ele a própria responsabilidade. Não há que se desacreditar da importância da colheita, pois também ela é necessária para a economia do mundo, quanto para a do espírito, mas no estágio em que a humanidade se encontra o exercício é muitas vezes mais essencial do que os seus resultados, de modo que lançar-se a um objetivo fútil e banal agora prepara o homem para esforços maiores no futuro. Com que outro propósito poderia a ordem do mundo dispor-nos a tantas ocupações vãs? Por que afinal tem a Suprema Inteligência tanto gosto em deixar-nos entregues à nossa própria liberdade, se em todas as nossas ínfimas e simplórias atividades não estivéssemos também sutilmente envolvidos numa tarefa grandiosa?
         Tal tarefa não há de ser outra que a construção de nós mesmos, e para ela concorrem decerto todos os nossos esforços num cenário em que nem o mundo nem a humanidade parecem tirar grande proveito deles.
O filosofia moral do liberalismo (o político, não o econômico) diz que o valor de um homem está no grau de exigência que ele impõe sobre si mesmo. Se a exigência é mínima, o seu valor é equivalente, mas se nossa exigência for extrema, também elevado será nosso valor, pois nosso esforço produz sempre resultados proporcionais. Essa percepção coincide com a velha sabedoria das religiões e filosofias que pregam o desapego, considerando os frutos aparentes sempre como consequências condicionadas a outros fatores exteriores ao trabalho do indivíduo. Garantidos, no entanto, são os frutos interiores que toda atividade enseja pelo simples fato de nos ocuparmos dela com persistência.
A disciplina, a força de vontade, o conhecimento, o hábito, a habilidade, a simpatia, o gosto, o apreço e a sabedoria se adquirem com esforço, mesmo quando o propósito deste não está a altura de sua função engrandecedora do espírito. Por isso podemos dizer com desassombro serem as metas mais vulgares sumamente úteis para o crescimento interior.
Mas, ao passo que toda a atividade justa é proveitosa, os objetivos elevados guardam para nós recompensas ainda mais desejáveis. E se nos desembaraçamos de compromissos com os resultados, nada nos obsta a traçar limites cada vez mais altos às nossas exigências pessoais, já que a frustração pelo eventual insucesso deve desaparecer na medida em que dermos mais valor ao comprometimento do que aos seus produtos visíveis.
As pessoas mais exitosas no cultivo do espírito sempre foram as que se dedicaram aos ideais mais elevados. A arte, a ciência, a religião, a justiça, a humanidade, a saúde, a educação, o progresso, a ordem; estes os objetivos das almas que mais crescem aos olhos de Deus. O empenho de qualquer ação em prol destes fins exige uma cota extra de sacrifício, paciência, estudo, tolerância, devotamento e transformação íntima, de modo que a existência aparentemente mais fugaz e apagada aos olhos do mundo pode ter sido a mais radiante para a aquisição do patrimônio eterno. 
Além disso, o simples fato de almejar os objetivos mais elevados coloca a mente em estado diferenciado, minorando instantaneamente os malefícios da visão acanhada da vida presente e das circunstâncias isoladas. O ideal alarga os horizontes do futuro e enobrece o passado e o presente. As conquistas do homem tornam-se mais evidentes, e menos relevantes os seus vícios e misérias. 
A grandeza do espírito nunca é mais evidente do que quando nos deparamos com ideias e realizações de alta complexidade em tempos remotos. Imagine-se a complexidade da matemática, o talento do escultor, o gênio do político, a grandeza do santo de há dois mil anos, e nosso ser não pode experimentar senão assombro e admiração, reverenciando intimamente aqueles que com tão pouco tanto fizeram.
Quanto mais alto elevar-se nossa visão, mais nos obrigaremos a subir. Até o ponto em que nos parecerá viável desejar o que estas grandes almas desejaram. Se conseguirmos manter essa expectativa sobre nós mesmos, não de uma forma tirânica, mas com a consciência de que é uma meta auto-imposta, as nossas energias logo saberão organizar-se numa frequência correspondentemente mais intensa.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Adolfo Bezerra de Menezes, o profeta filósofo do Ceará.


A cada século e em cada nação Deus permite nasçam homens e mulheres especiais, que pela sua depuração completa e ascensão intelectual arrastam multidões; verdadeiros clarões na noite, fazem valer as palavras poéticas de Atos:
                                                                      Porque era homem de bem e cheio do Espírito Santo e de fé. E muita gente se uniu ao Senhor”. (Atos, 11:24)
        
Conhecido como doutor, renomado pela caridade com que procedia no atendimento dos mais pobres que acorriam às centenas ao seu consultório, o gênio cearense radicado por muitas décadas na capital imperial não era menos notado em sua própria época pela estatura intelectual.
Dominando à perfeição línguas clássicas e modernas, com predileção pelo francês e pelo latim, estendendo sua compreensão a todas as sutilezas da ciência médica e da filosofia espírita, tendo elaborado um tratado minucioso sobre a influencia espiritual nas patologias psiquiátricas e um não menos brilhante estudo filosófico-teológico que engloba temas tão melindrosos quanto a filosofia alexandrina e um extenso domínio da teologia e da história da Igreja católica, o nosso pensador completo e profícuo bem mereceria também a alcunha de filósofo, e isso no sentido mais tradicional da Antiguidade, quando o nome indicava a posse de um saber panorâmico.
Bezerra de Menezes popularizou-se como doutor, mas é possível que tenha trabalhado mais como deputado e vereador em seus vários mandatos; e se o seu papel político não foi o de um Rui Barbosa ou de um Rio Branco, é bem verdade que participou de forma decisiva na melhoria das condições urbanas do Rio de Janeiro. Palestrando e estudando os problemas da causa abolicionista, defendendo pioneiramente os direitos trabalhistas, preocupando-se em proteger os trabalhadores contratados com a obrigatoriedade do aviso prévio de 30 dias, apoiando as causas da saúde pública e da educação, chegou a exercer grande influência nas câmaras em que atuou. Foi talvez o primeiro a incomodar-se seriamente com a poluição causada pelo lixo urbano. Enfim, um dos membros da vanguarda do partido liberal.
Como empresário tomou parte de diversos programas, presidindo alguns deles, que em muito contribuíram para a implantação de linhas férreas e bondes em todo o estado do Rio de Janeiro.
É fácil aparentar humildade quando não se possui nem título, nem reconhecimento, nem cargos de relevo ou autoridade. Qualquer um imagina-se modesto perdido na multidão. Ser reconhecido como sumidade da cultura, doutor, Sua Excelência, ostentando publicamente os brasões do mérito pessoal e da sociedade, e ainda assim manter-se de cenho grave e atitude servil é tarefa para pouquíssimos.
Cícero e Goethe foram pensadores universais; ambos acumularam as atividades de político, poeta, cientista e filósofo, enriquecendo para sempre as comunidades em que viviam e tudo dedicando à glória de seu povo. Não souberam, entretanto, esquivar-se da vaidade pessoal ou conciliar a benemerência que praticavam no campo da cultura à caridade cotidiana no trato com subordinados ou para com os mais simplórios que não podiam desfrutar de suas conquistas sofisticadas no campo das letras e das ciências.
Também entre os santos e mártires, em contrapartida, não nos ocorre um único que tenha conciliado de modo tão completo a virtude estoica e o sentimento compassivo à uma estatura intelectual de impacto sobre a cultura e as instituições.
Bezerra de Menezes deve ser ainda descoberto em sua inteira grandeza, ficando como marco referencial para as gerações futuras que, conforme acreditamos, buscarão resgatar a sua biografia na intenção de extrair dela um dos modelos mais perfeitos para a evolução do espírito humano.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A fé, mãe da razão.


Um nobre ditado romano diz: Volenti nihil difficile” o que significa aproximadamente “a quem quer, nada é difícil”. Essa é uma verdade controversa nos dias de hoje, e não é sem justiça que muitos se revoltam contra ela. Com todas as vantagens que temos em relação à Antiguidade, especialmente no tocante ao esclarecimento e à ciência, é notória a raridade com que se encontra hoje homens e mulheres dotados daquele caráter de mármore tão típico dos tempos de Sócrates e Cícero, João Batista e Paulo.
É por isso que uma exortação mais entusiástica nos soa tão inapropriada; pensamos querer, e uma vez que não logramos sucesso nos rimos do entusiasmo dos santos e mártires, dos estóicos e dos idealistas. Querer, para aquela espécie de homem que viajava a pé com uma sacola de figos à cinta, não se resume a desejar, como para nós, ou a empreender duas tentativas, com a índole revoltada a insinuar que o universo está a receber uma segunda oportunidade de se curvar ao nosso capricho. Há dois mil anos, ou mesmo há menos tempo, o querer pressupunha antes de qualquer coisa o sacrifício, a perseverança de toda uma vida, o renovar desgastante da luta frente a obstáculos diários, alguns deles já nem tidos como tais, tal a dureza de que se revestiam o povo no geral e os seus heróis em especial.
Imagine-se um Diógenes, que abandonou uma vida confortável para viver como um cão (daí o nome cínico, de sua escola, pois kinis em grego significa cão), dormindo ao relento, sempre seminu e faminto. São conhecidas as anedotas sobre seu encontro com Alexandre, sua caneca e seus passeios noturnos com a lanterna, que mais pela excentricidade do que pela admiração moral acabaram por se tornar lendárias. A verdade, possivelmente, é que esse pensador tudo sacrificou pelos outros, fazendo de si um exemplo da abnegação, do abandono material e do desprendimento de si. Uma vida absolutamente miserável, sustentada pela fé de que o seu exemplo haveria de incomodar o seu próximo e fazê-lo refletir.
Diógenes queria, assim como Sócrates soube querer a justiça e a verdade a ponto de tomar um cálice de veneno por elas; ou como o Cristo quis a reforma da humanidade a ponto de não se esquivar do suplício da cruz. Todos foram derrotados, de um ponto de vista material, porque o mundo realmente não se dobra à nossa vontade, mas todos são vitoriosos do ideal, e provaram que querer é perseverar sendo aquilo que se elegeu no íntimo.
Àquele que quer, nada é difícil, porque saberá transpor tempestades e dissabores, incompreensões e fracassos exteriores, vencendo, no entanto, quanto aquilo que interessa, a fidelidade à sua própria escolha. Mas este querer deve ser espiritual, o único compatível com nosso poder, circunscrito ao nosso império. Queira-se as conquistas mundanas, as posses de bens e pessoas, os títulos, e mesmo os triunfos serão temporários e efêmeros.
Nesta era de cupidez, mesquinharia e vaidade não é o querer que arrefeceu, mas o seu propósito e significado que foram corrompidos. Fora de si, o homem busca o que não lhe pertence, e fica entre o padecimento da decepção e o gozo ensandecido seguido pela perda. A vontade está espoliada de seu patrimônio, não porque abrandou-se a chama do espírito, senão porque os enganos do mundo deslocaram as suas forças para uma região sob a qual ela não exerce o seu império.
Fala-se no “segredo”, fórmula de sucesso dos vãos e dos gananciosos. Cientistas pseudo-sábios apresentam as maravilhas da “física quântica” em linguagem “espiritualista”. Tudo entre muitas aspas e com muitas ressalvas, pois se a ciência e a religião, a matéria e o espírito hão de encontrar-se numa grande síntese, esta só pode ser uma que integre suas diferenças, ao invés de subjugar a irredutível liberdade do espírito a uma magia materialista.
Mas ainda não é disso que queremos falar. Primeiro é preciso expurgar toda a sombra de animalidade dos temas espirituais. Vontade, liberdade, razão, são as partes mais nobres e depuradas das potências que podem servir às necessidades materiais do homem, como desejo, individualismo e astúcia. Feita essa separação inicial precisamos subir a um outro nível de discurso correspondente à elevação do objeto contemplado.
A fé, espiritualmente falando, é o poder pelo qual o indivíduo sustenta a sua iniciativa, seja ela uma ação física, moral ou puramente teórica. Sempre que o homem espera um resultado para as suas ações, precisa ele prestar oferenda de confiança a si mesmo e/ou a Deus. Se a força de vontade é a energia bruta que move toda ação, a fé é a postura existencial, voluntária, de confiar no êxito da empreitada. A fé não move os membros ou o pensamento, mas ela dá convicção intelectual, firmeza de espírito e segurança emocional para que a vontade se desdobre na direção almejada. Com a vontade o homem caminha, com a razão ele planeja o percurso, e com a fé ele se convence de que o viagem é realizável.
O oposto da fé não é a dúvida, e sim a desconfiança. A primeira é uma ferramenta intelectual que pode ter emprego positivo. A segunda é uma postura existencial que paralisa o indivíduo impedindo-o de agir ou, na melhor das hipóteses, diminuindo o seu empenho e dedicação. Duvidar não prejudica a fé; desesperar sim. E é perfeitamente possível manter-se em dúvida e, não obstante, lançar-se corajosamente num caminho incerto que se elegeu. A fé, aliás, prova a sua força na presença da dúvida, pois do contrário a sua convicção não encontra desafios.
Nenhuma escolha filosófica é possível sem a fé, porque a filosofia, enquanto questionamento radical acerca dos elementos e fundamentos primeiros, baseia-se completamente na liberdade interpretativa. Qualquer proposição de verdade é, segundo a filosofia, uma pressuposição, jamais um dogma. E uma vez que se admite o caráter volitivo e hipotético de todas as doutrinas, cada uma delas exige de seus partidários um voto inicial de confiança. Por mais que se afirme haver razões, experiências ou intuições pessoais que justificam a adoção de uma doutrina em detrimento das demais é inevitável reconhecer que os partidários de doutrinas opostas evocam estas mesmas prerrogativas, e a escolha está sujeita, em última análise, à confiança ou fé que o sujeito tem em seu próprio julgamento. Há motivos racionais para se ser isto ou aquilo, inclinações pessoais para tal ou qual concepção da vida, da ciência, da justiça, e se este impasse fala mais alto do que a confiança nos rumos assumidos, o desespero se instala, e nenhum fundamento mais pode ser lançado.
Por mais que a concepção vulgar de fé e razão instaure entre elas a cizânia, é filosoficamente impossível a existência da segunda fora da primeira. A eficácia da razão ao invés do caos, a confiança de que as regras de nosso entendimento realmente coincidem com as regras da natureza, não constituindo apenas uma impressão do nosso ponto de vista, e a convicção de que haja um valor intrínseco na ordem que a torne preferível à irracionalidade são problemas que os filósofos só puderam resolver através do estabelecimento de pressupostos fundamentais, proposições de fé.
Sócrates combateu o relativismo dos sofistas postulando a fé nos critérios e princípios lógicos de julgamento. Ele demonstrou que essa confiança na razão é uma questão de opção, e que não pode ser imposta dogmaticamente, mas que sem ela não se poderia encontrar regras imparciais segundo as quais o conhecimento pudesse ser avaliado. Para que se possa questionar e debater livremente é preciso que os princípios da argumentação sejam independentes das pessoas envolvidas nelas. Em outras palavras, precisam ser universais.
Descartes resolveu sua dúvida radical postulando a existência de um Deus garantidor da eficácia da razão. Se não houver esta pressuposição de fé, segundo ele, seria impossível escapar da circularidade destrutiva da dúvida metódica. A razão não elimina a dúvida, e não pode enfrentá-la com a força da persuasão argumentativa. A validade da razão precisa ser postulada, acreditada por princípio, para que o seu poder de convencimento passe a valer.
Kant operou sua famosa crítica da razão reconhecendo que a escolha entre desconfiança ou confiança no conhecimento é uma escolha pragmática. O conhecimento é válido porque assim nos parece, e porque se não o for não podemos prosseguir com empreendimento algum. Não podemos jamais saber como é a verdade, mas, limitados à nossa perspectiva humana, podemos ao menos trabalhar com o que nos parece ser.
Essa fé não é sempre nem necessariamente uma fé em si mesmo apenas. Ela pode ser e frequentemente é uma fé em sentido religioso, uma fé metafísica na estrutura da natureza, na garantia de um Deus bom e justo, uma pressuposição de que um espírito criador não poderia incutir em nós uma inteligência falha e sem correspondência com a verdade.
Assim como há razões para se ter fé, é preciso fé para se ter razões, de modo que a convicção proporcionada pelo entendimento e a convicção no próprio entendimento se dependem e alimentam mutuamente. Os que crêem prescindir da fé por possuírem a razão cometem assim um atentado lógico aos fundamentos de suas convicções, pois tudo o que for eleito como critério tem o crédito que lhe for atribuído voluntariamente, por fé.