segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Nossa herança oriental.

Quando Napoleão chegou ao Egito, narra Tolstoi em seu épico romance Guerra e Paz, ele percebeu que a vastidão dos horizontes, o número imenso da população e o papel histórico dos continentes africano e asiático tornavam-nos muito mais importantes do que a Europa. Diante do caudaloso Nilo, ele teria percebido o quão patético parecia o seu exaltado Sena, e a idéia de governar o mundo a partir de Paris lhe pareceu pela primeira vez uma infantilidade. Se uma nova ordem mundial pudesse realmente se estabelecer, não seria jamais isolada na ponta da península européia, mas fincada no coração do mundo, no Egito ou na Rússia.
Ainda segundo o brilhante escritor russo, esta súbita revelação da irrelevância física da Europa foi o que causou no imperador dos franceses uma obsessão pela conquista da Rússia.
Mais de um século depois, Hitler tentou levar a termo o mesmo projeto de transposição do Cáucaso. No plano estratégico do Terceiro Reich os recursos e a posição intermediária entre Europa e Ásia tornavam a Rússia e o Cazaquistão aquisições vitais ao projeto de superpotência alemão. A Alemanha deveria substituir a União Soviética como a superpotência do eurocaucaso ou extinguir-se como nação.
O que os conquistadores perceberam com muita perspicácia é que a Europa só mantinha sua posição central no concerto das nações por uma condição temporária de liderança técnica, cultural e política. Ambos anteviram a vulgarização das instituições que garantiam a ordem e do conhecimento que propiciava a riqueza e o poder europeus.
Do ponto de vista geográfico a Europa não passa de uma península da Ásia. Tão grande quanto a península indiana ou indochinesa, mas mais isolada, a ponto de permitir o desenvolvimento de uma cultura própria como em nenhuma outra província asiática seria possível. Acrescenta-se a isto as vantagens combinadas de terras férteis, clima temperado, o que evita doenças tropicais, e a boa sorte de ter recebido constantes levas de populações arianas oriundas da Índia, Paquistão e Afeganistão. Povos estes que estavam entre os mais avançados nas eras primeiras da civilização.
Cruzando o tamanho reduzido com estas condições privilegiadas temos como resultado um ambiente exótico e quase artificial de mescla de culturas, prosperidade agrícola e industrial, além de obstáculos geográficos que permitiam a especialização e evitavam o domínio de um império universal. Um exemplo disto é a linha divisória que se estende dos Alpes a foz do Reno, e que sempre dividiu os povos latinos e germânicos nesta região. Em qualquer outro ambiente da Eurásia, exceto na Indochina que compartilha as mesmas características, um espaço tão pequeno conservou-se politicamente fragmentado. Impérios como o persa, o mongol, o chinês e os da Índia somavam territórios bem maiores do que o de toda a Europa Ocidental. Mesmo o Império Romano, do qual os ocidentais tanto se orgulham, não conseguiu se estender senão por metade da península.
Esta fragmentação política garantiu a Europa mais vantagens do que desvantagens. A principal vantagem foi a forte noção de independência desenvolvida pelos povos europeus, que sentiam-se hábeis e livres evitando a incorporação por potencias conquistadoras muito maiores. Com o isolamento natural esta autoconfiança estabeleceu-se como um sentimento de liberdade que os povos da planície asiática, freqüentemente invadidos e incorporados por impérios estrangeiros, não compartilhavam. A desvantagem mais acentuada, por outro lado, é que a sensação de separação e isolamento das populações favorecia um sentimento de diferenciação racial e cultural, propiciando guerras constantes. No subcontinente indiano ou no Cáucaso, onde a miscigenação e a troca cultural sempre foram intensas, culturas notadamente mais tolerantes se desenvolveram, o que só é contrariado pela recente recrudescência do Islamismo xiita. Este último, por sua vez, ao contrário do que se pensa, constitui uma minoria mínima dentro do Islã, não passando de 16% do total de muçulmanos, e sua versão fundamentalista só intensificou-se no século XX.
Ainda falando em geografia imagine-se o mapa da Eurasia. Embora a Europa seja realmente o ponto mais ocidental do continente, é errado defini-la simplesmente por “Ocidente”, pois o Oriente Médio cobre a parte sudoeste desta placa continental. Visto a partir da Ásia Central, incluindo a Europa neste quadro, o Oriente Médio é na verdade o Ocidente, e a Europa só ocupa o noroeste. Numa definição cultural em que o Ocidente é a Europa, todos os demais sete direções cardinais são definidos como Oriente. E isto para não falar na África, que estando ao sul, com muitas regiões mais ocidentais do que a Itália e a Grécia, por exemplo, é em geral definida também como Oriente.
Enquanto a definição de civilização ocidental é inconseqüente do ponto de vista geográfico, ela tem pouco sentido do ponto de vista histórico e cultural. As primeiras definições de oriente-ocidente remontam as grandes civilizações da antiguidade européia, a helênica e a romana. Ambas tinham na Síria e na porção central da Turquia o marco do início do Oriente. O Ocidente seria o espaço helenizado da costa mediterrânea da Turquia até a Península Ibérica. Esta concepção se acentuou muito com a divisão do Império Romano em versões oriental e ocidental, estando a África sob administração do Império Romano do Oriente, o que justificava a classificação de regiões tão ocidentais como Cartago como sendo parte do Oriente. A posterior divisão da Igreja católica em Romana e Ortodoxa, uma ocidental e a outra oriental, também acentuou a divisão da Europa e a concepção de que o oriente começava nas fronteiras com a Bulgária e a Ucrânia.
Excetuando-se, portanto, algumas concepções minoritárias, o Ocidente foi em geral a definição da civilização crista, não ortodoxa, da Europa central e ocidental. É comum até hoje ouvir definições de europeus sobre a Rússia como sendo um país de costumes orientais. Com isto concluímos que, de um ponto de vista conservador, o Ocidente é definido como a parte central e ocidental da Europa. Talvez principiando em São Petersburgo e Odessa. De um ponto de vista muito mais genérico e inclusivo, a parte européia da Rússia e até a Armenia poderia ser incluída nesta definição. De um ponto de vista religioso e filosófico, por outro lado, todos os povos de orientação crista ortodoxa são orientalistas, sendo que somente a Grécia costuma ser “perdoada”, pelo seu papel histórico na formação do Ocidente, e é por isto que na nossa análise faz mais sentido admitir uma visão conservadora da civilização ocidental.
Não é preciso mais do que uma olhada rápida no mapa para descobrir o quão insignificante é esta região que só cobre parte da Europa diante da África e Ásia que a cercam e a fazem parecer uma península espremida em meio a dois verdadeiros continentes. O que assusta, entretanto, é que o imaginário do homem ocidental médio faz parecer o seu mundo tão grande quanto o “Oriente”.
Nossos livros de história resumem, com poucas menções ao Egito e a Mesopotâmia na Idade Antiga e a outros países a partir do século XIX, a história desta célula geográfica que é a Europa ocidental e central, e ainda assim com raríssimas referências à Polônia, Romênia, República Tcheca e Hungria. E mesmo dando todo o crédito aos países da Europa Ocidental pelas suas conquistas determinantes no desenvolvimento intelectual e moral do mundo, a sua pretensão hegemônica no campo cultural é uma megalomania, para não dizer uma esquizofrenia coletiva.
Doa e quem doer, goste-se ou não, o que em geral definimos como Oriente é de longe a parte majoritária do planeta, em população e cultura. Estou convencido de que é preciso ir ainda além da valorização de Will Durant do papel dos povos asiáticos e africanos na formação do Ocidente. Em seu brilhante livro Nossa herança oriental ele afirma que o berço do Ocidente é o Oriente. Vou além e afirmo que o futuro do Ocidente é também ser reabsorvido no Oriente, e isto não constitui uma tragédia, mas um evento salvador que reabsorverá a nossa civilização no organismo maior da cultura humana. O insulamento que fez aflorar as magníficas culturas do Japão e da Europa Ocidental não é mais necessário ou possível. Não é necessário, pois não há mais a ameaça de invasões bárbaras. E não é mais possível porque o insulamento não existe mais na era da livre informação e do livre transito de pessoas. A América tampouco, que deteve a tocha da civilização ocidental sob a forma dos valores americanos por menos de um século, pode sustentar esta “pureza” artificial. Suas ondas de imigrantes e seu acentuado fascínio pela Índia e pelo Extremo Oriente já abriram as portas à reintegração.
Sob todos os aspectos que consigo imaginar, não existe vantagem ou sentido no prejuízo cultural e religioso contra o orientalismo. E o cristianismo não pode sustentar uma postura isolacionista em relação às demais religiões universais, que igualmente não o podem fazer. Sairia na frente daria o exemplo de boa vontade o grupo religioso que se dedicasse seriamente a uma proposta integradora mais ampla. De modo algum isto significa a perda das especificidades de cada grupo, das conquistas e da identidade histórica que cada fé e cultura possuem pela razão óbvia de ter um local de origem. Mas no mundo unificado que começamos a vislumbrar o mínimo que se espera de um segmento cultural que não queira ser tomado de roldão. Esta agenda mínima de boa convivência e integração inclui, a meu ver:
1-    Ações positivas de diálogo interreligioso e ecumenismo.
2-    Estudo comparativo das religiões, em todos os aspectos (filologia, história, teologia, filosofia, sociologia)
3-    Fomento do cosmopolitismo e do esclarecimento religioso.
É muito difícil imaginar uma cultura ou religião que sobreviva até o final deste século sem estas iniciativas, a não ser como foco de atraso e conflito.
Acho que o Espiritismo tem exercido influencia louvável nestes aspectos, com exemplos profundos de tolerância e engajamento social entre populações de crenças distintas, com o interesse e a aceitação de elementos pluralistas, a exemplo de autores russos e indianos na literatura mediúnica, do respeito e admiração declarados que a maioria, senão a totalidade dos espíritas tem por figuras católicas como São Francisco, protestantes como Jan Huss, hindus como Gandhi, e assim por diante.

         Entretanto, nunca é demais reafirmar estas questões e lembrar do quanto é essencial a intensificação deste ritmo integrador numa época em que todas as mudanças ganham velocidade.

Um comentário:

  1. Suas observações são muito oportunas e verídicas, meu amigo. O olhar euro-norteamericano de fato se enxerga como o mundo, enquanto tal, e sua civilização como a única digna de tal título, por excelência. Em roteiros cinematográficos isso fica evidenciado, pois nas ficções catastróficas, a destruição de Nova Yorque ou Washington é interpretada como sendo, acima de tudo, o fim do mundo que conhecemos... Isso é que é autoestima!

    ResponderExcluir